A voz de um atleta perito em acessibilidade!

1 Dec

Hélder Mestre à espera da partida numa prova do Campeonato do Mundo de Atletismo IPC 2015 Doha (Qatar).

Hélder Mestre vive em Lisboa e trabalha na Divisão de Administração de Sistemas, Infra-Estruturas e Comunicações, do Departamento de Sistemas de Informação da Câmara Municipal de Lisboa. Pratica atletismo adaptado, e participou no Campeonato Mundial Paralímpico de Atletismo no Qatar, tendo também obtido os mínimos para competir nos Jogos Paralímpicos no Rio de Janeiro em 2016.

Quais os percursos que compõem o seu quotidiano?

Hélder Mestre (HM)  No dia-a-dia, de forma geral, é casa-trabalho, trabalho-casa. Tenho carro, mas por hábito não o levo. Acrescento uma handbike, que me permite empurrar a cadeira quase como se fosse uma bicicleta, e é esse meio de transporte que utilizo no dia-a-dia. Facilita-me muito a vida porque me permite vencer os obstáculos com maior facilidade. Quando utilizo apenas a cadeira, como o passeio é todo em calçada e as rodas da frente são pequeninas, a cadeira trepida por todos os lados, por isso, sempre que posso vou pela estrada. Nem quando chove mudo os meus percursos ou uso o carro.

Como foi o processo de inserção na Câmara? Encontrou barreiras por ter mobilidade reduzida?

HM- Sim, barreiras físicas. O edifício onde comecei a trabalhar tinha à entrada um degrau de cerca de 10 cm de altura, por isso tinha sempre de pedir ajuda ao segurança para entrar. O elevador que havia no edifício era muito pequenino e eu só conseguia entrar tirando os apoios dos pés da cadeira. Também não havia casas-de-banho adaptadas. Dois anos depois mudei-me para o edifício onde estou agora, que na altura também não tinha acessos. Já não sei quanto tempo estive nessas condições, mas a nosso pedido, meu e da chefia, fizeram uma série de rampas, e neste momento tenho os acessos que preciso. Só a casa-de-banho é que ainda não existe em condições para quem tem mobilidade reduzida, mas desenvolvi um método que me permite utilizá-la mesmo assim.

Encontra limitações de acessibilidade ao nível dos serviços?

HM- Há sítios onde vamos e contávamos ter acessos e depois não temos. É o caso dos bancos, por exemplo. Antigamente chateava-me com isso, mas passei a aceitar que me atendam noutro local do banco. Sei que fazer isto assim é discriminatório, e há muitas pessoas na minha situação que sofrem com isso, mas eu tento dar a volta. Sou atendido na mesma, consigo fazer o que quero, e cumpro o objectivo a que me propus. Outra dificuldade é no centro de saúde que utilizo, em Sete Rios, que tem uma rampa tão inclinada que a cadeira escorrega. Tiveram a preocupação de fazer uma rampa, mas não tiveram o cuidado de a fazer de acordo com as regras. Aquilo não serve para nada assim. Outro problema são as caixas Multibanco. Eu conheço algumas acessíveis, tanto na zona de casa, como do trabalho. Sei aquelas onde posso ir, mas as que encontro geralmente na rua são de acesso impossível. Algumas até estão a uma altura acessível, mas à frente têm um degrau, portanto não as conseguimos usar na mesma. De uma forma geral, os centros comerciais e os hipermercados são os sítios onde temos melhores acessos.

Como se precavê de percursos com barreiras?

HM- Se eu souber que um sítio tem barreiras tento evitar. Se não tiver alternativa, vou até lá, analiso e vejo o que posso fazer. Muitas vezes utilizo o Google Earth antes, e, no street view vejo como é o acesso do sítio para onde estou a pensar ir, e em função disso elimino problemas que iria ter se não o tivesse feito. Acho que acima de tudo não nos podemos é chatear muito com isso, porque na maior parte dos sítios há sempre outras pessoas por perto, e é só pedir a pessoal jovem e com força, que eles ajudam. Às vezes pensamos que estamos a incomodar, e não estamos. As pessoas têm prazer em ajudar.

Há sítios onde as soluções seriam fáceis de encontrar…

HM- Sim, sem dúvida. O melhor exemplo são os passeios rebaixados. A maior parte desses acessos tem pelo menos dois centímetros de altura. Não consigo perceber por que é que aquilo está feito assim. Esse é o típico exemplo de uma obra que custaria exactamente o mesmo se fosse bem feita, no entanto está mal feita.

Quais as actividades de lazer que privilegia?

HM- Eu sempre fiz atletismo, sempre gostei e hoje continuo a fazer. Adoro! Além do atletismo, experimentei muitas coisas. Eu sabia nadar [antes do acidente], e depois tive que reaprender. Fiz natação durante alguns anos e experimentei remo, canoagem, andebol… Vou ao cinema e a concertos, e dou muitos passeios por Lisboa. Lamento que a Ribeira das Naus, que foi feita há pouco tempo, seja um sítio tão dramático para nós. Bastava que fosse lisinha, e já podíamos andar lá bem. Assim não, é um perigo e em vez de se apreciar o sítio, estamos sempre a debater-nos para não nos espalharmos no chão.

Essas actividades de lazer são condicionadas pelo facto de andar de cadeira de rodas?

HM- Muito sinceramente acho que actualmente já não, porque existe muita oferta. Por exemplo, o cinema do Campo Pequeno é excelente para nós. Eu acho que o mais importante nisto é a nossa postura. Eu tento sempre ir à procura da solução, sou muito pragmático nisso. E acho que a pessoa vive melhor assim.

Costuma fazer férias fora da cidade? Se sim, onde?

HM- Costumo ficar em Lisboa ou ir para o Algarve com o meu irmão. Quando vou para lá é mais difícil e ele tem de me ajudar. Costumo ir para a praia da Galé, onde existe um tiralô. Quando chegamos os nadadores-salvadores dão-nos o tiralô, que fica a nosso cargo, e quando é preciso ir ao banho utilizo-o com a ajuda do meu irmão. Tenho este cuidado de ir para uma praia onde há um tiralô, onde não há muita gente, e que tem bons acessos.

Sente que a cidade de Lisboa está pensada para quem não tem limitações de mobilidade?

HM- Sim, é isso mesmo! Há adaptações para nós mas são muitas vezes enviesadas, mal feitas e não estruturadas. Têm surgido ciclovias, que são uma coisa muito boa para quem anda em cadeira. Eu sou um grande cliente das ciclovias [risos]. É como andar na estrada com a vantagem de não ter carros. Eu queria era que se espalhassem muitas pela cidade. Quantas mais fizerem, melhor será para nós, para andarmos à vontade.

De que forma o facto de andar de cadeira de rodas influencia a forma como se vê a si próprio? E como os outros o veem?

HM- Essa pergunta é muito interessante, já tenho pensado sobre isso. Os meus colegas já me têm dito uma coisa engraçada: esquecem-se que eu ando de cadeira de rodas. Acho que é bom sinal [risos]. Não posso falar por aqueles que já nasceram assim, mas o meu caso, que vim parar à cadeira depois de um acidente, faz pensar. Isto aconteceu-me a mim, que sempre gostei de actividades com esforço físico. De repente fiquei tetraplégico. Andar de cadeira de rodas condiciona-me em certas coisas, mas também me criou uma perspectiva diferente sobre a vida. Não sei se fez de mim melhor pessoa, ou pior [risos]… Mas sei que andar de cadeira de rodas não me define. Acho que o meu trajecto e a minha postura são positivas e que isso é o mais importante. A alternativa era desistir e isso não se coloca como hipótese para mim.


  • Entrevista: Inês Maia
  • Imagem: Ricardo Mestre
  • Edição: Lisboa (In)Acessível

 

 

Carrinhos de bebé em Lisboa – Testemunho de uma mãe –

11 Nov

Imagem estilizada a preto de mãe a empurrar um carrinho de bebé e a transportar outro bebé às costas.

Texto: Ana Naiker | Edição: Lisboa (In)Acessível

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A Ana tem 35 anos e nasceu em Lisboa, onde viveu até Junho de 2015. Actualmente vive em Guilford, e estuda no Guilford Collegue. Tem dois filhos rapazes, um de dois anos e outro de um.

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«Como mãe andar com os carrinhos de bebés pelas ruas de Lisboa sempre foi uma aventura!

As ruas não estão minimamente preparadas para esse efeito, sempre sofri imenso porque os passeios são muito altos e nem sequer existe uma parte mais baixa para subir nem descer.

Várias vezes me questionei se seria a única pessoa com essa dificuldade, mas na altura falei com muitos amigos que também já tinham tido algumas experiências menos boas.

Já não basta o facto de termos um bebé que queremos proteger de todos os perigos, e ainda temos que estar sujeitos aos tombos, por causa das ruas que estão cheias de buracos ou das ruas que não estão acabadas e daquelas em que nem existe espaço para passar com o carrinho – porque os carros utilizam todos os espaços possíveis e imaginários.

Ninguém pensa nas pessoas que diariamente usam as ruas e quais as suas dificuldades. É triste, mas sempre encontrei dificuldades nos passeios e houve mesmo ocasiões em que tive de pedir ajuda a estranhos.

Enfim, a minha experiência não é a melhor, mas o pior é que nada mudou desde que tive o meu segundo filho, e continuo com os mesmo problemas com o carrinho, no entanto, já adoptei técnicas que me ajudam a ultrapassar os obstáculos mais facilmente.»

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Vencer preconceitos.

12 Aug

Texto: Inês Maia | Edição: Lisboa (In)Acessível

Novo símbolo universal de acessibilidade.

Por mais que se apregoem ideais de inclusão, a verdade é que a cidade fala por si: persistem os espaços que estão ao alcance só de uns e onde não se verifica o cumprimento de regras básicas que garantam a inclusão de todos, levando os indivíduos com mobilidade condicionada a sentirem-se, de forma mais ou menos directa, excluídos. Existe a sensação de uma cidade construída para quem não tem limitações de mobilidade, o que implica que quem as tem precisa constantemente de encontrar mecanismos para se adaptar. Esta lógica segrega quem vive com mobilidade condicionada, num complexo processo de desigualdade e de desrespeito pelo outro. A sensação de que se vive estigmatizado reforça-se num circular quotidiano por uma cidade repleta de barreiras, onde, por exemplo, é raro encontrarem-se outras pessoas em cadeira de rodas.

Sabemos que as barreiras do edificado estão longe de ter apenas consequências ao nível dos impedimentos físicos. Isto porque os indivíduos não precisam apenas de acesso a um lugar, precisam também de sentir que o local lhes pertence e que é tanto deles como dos outros. Precisam de espaços que moldem como lugares seus. Em especial na cidade, lugar de encontro, as pessoas procuram os espaços com que se identificam e de que se podem apropriar, num processo de construção e reforço das suas identidades.

Para reverter este cenário, é fundamental perceber que a exclusão resulta da materialização de uma visão do mundo que ignora a complexidade e as diferenças dos seres humanos. No momento de pensar a cidade, ignora-se a diversidade de características de quem vai fruir dela. Esquece-se que aquilo que para alguns é irrelevante, para outros pode ser uma barreira. A estas noções, encontram-se também associados preconceitos muito enraizados. Persiste a dificuldade em aceitar como igual alguém com uma deficiência física; é comum que se centre o olhar nessa questão, esquecendo que aquele indivíduo tem muitas outras características, não sendo a cadeira de rodas aquilo que o define. Persiste a noção do “coitado” que precisa de ajuda para tudo, associada a um sentimento de pena. Também a ideia de que alguém com mobilidade condicionada pode e quer ser independente, assim como pode e quer ter uma vida activa, parece ainda surpreender muitas pessoas.

Assim, valorizamos a apropriação do espaço público que as pessoas com mobilidade condicionada têm vindo a levar a cabo. Desta forma, afirmam perante os outros (e perante si próprios) que as limitações físicas não podem ser motivo de exclusão e que o usufruto da cidade não deve ser limitado por estas. Todos nós devemos reforçar este caminho de confronto e combate aos preconceitos que persistem e que estão na base do planeamento de cidades que ainda excluem as pessoas com mobilidade condicionada. Desta forma contribuímos todos para a construção de espaços verdadeiramente inclusivos.

 

Acessibilidades em Lisboa. Opinião de Raquel Rodrigues.

1 Jul

Entrevista de Inês Maia, estudante de Sociologia, a Raquel Rodrigues, cidadã lisboeta com mobilidade reduzida que se desloca em cadeira de rodas.

Raquel Rodrigues tem 34 anos e é natural de Lisboa. Licenciada em Psicologia pela Universidade Lusófona, encontra-se a concluir o mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde e trabalha actualmente na Secretaria da Junta de Freguesia da Pontinha. Participa activamente na Associação Casa do Chapim, como Presidente do Conselho Fiscal.

Inês Maia (IM): Quais os percursos que compõem o seu dia-a-dia? Encontra obstáculos à acessibilidade nesses percursos?

Raquel Rodrigues (RR): Agora como estou a trabalhar na Junta de Freguesia da Pontinha e moro perto, vou na cadeira de rodas de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Quando vou para a fisioterapia ou para o yoga adaptado em Benfica vou de autocarro. A maioria dos autocarros tem uma rampa e eu consigo entrar normalmente. É fácil quando há a tal rampa [risos]. Muitos ainda não a têm e alguns já têm mas está avariada. Também ando muito de metro quando vou passear. O metro é sem dúvida muito mais rápido e hoje em dia já há elevadores em algumas estações. Para entrar mesmo para dentro do metro peço ajuda a alguém. Mas já aconteceu várias vezes chegar a uma estação, sair do metro para apanhar o elevador para a rua e o elevador estar avariado. Tenho que entrar novamente no metro e sair noutra estação.

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IM: Encontra outros obstáculos à acessibilidade em Lis­­­­boa? Que soluções propõe?

RR- Sem dúvida que a falta de civismo das pessoas é o principal obstáculo. Já não há muitas acessibilidades e o que há é imensas vezes tapado com carros. Na minha rua fizeram um único rebaixamento de passeio e esse rebaixamento está sempre bloqueado. Todos os dias ponho um papel no vidro do carro que diz “os passeios rebaixados são para pessoas com mobilidade reduzida. Respeitem!” Mas ninguém liga.

Também existem passeios que só têm o rebaixamento de um dos lados. Portanto não vale a pena. É mais fácil ir pela estrada, apesar de ser perigoso. Além disso, os passeios em calçada nas zonas de Lisboa antiga também são complicados, porque a cadeira treme bastante. Como solução, acho que o rebaixamento dos passeios era fundamental. Eu já andei sozinha na rua e não tinha ninguém por perto para me ajudar a subir um passeio. Nunca vou ter independência a circular se não tiver os passeios rebaixados e se não os respeitarem!

IM: Como são as acessibilidades no seu local de trabalho?

RR- A Junta de Freguesia está toda adaptada. Tem casa de banho adaptada, as portas são largas e tem rampas. Tudo. O único obstáculo era a secretária que não estava ao nível da minha cadeira, mas eu levei uma mesa que tinha em casa e fui adaptando às minhas necessidades.

IM: E na Universidade onde estudou?

RR- A Lusófona até tinha acessibilidades, mas não todas quanto deveria. No início havia bastantes barreiras arquitectónicas, mas devagarinho fomos tentando conciliar a mobilidade reduzida que eu tenho com os acessos na faculdade. No início não havia casas de banho adaptadas, depois construíram uma e hoje em dia já existem duas. Há pavilhões que têm salas em baixo e em cima e eu logo no início do ano pedia para a minha turma ficar nas salas de baixo. O problema era que a meio do semestre decidiam mudar de sala para o andar de cima, portanto quando chegava, tinha de voltar para trás, porque não tinha como ir para a sala. Era mesmo frustrante! Isso aconteceu até em exames. Eu ia preparada para aquele dia e diziam-me para voltar depois e fazer o exame no gabinete do professor. Não devia ser obrigada a estar isolada a fazer o exame, não é? Quer dizer, eu era igual para pagar as propinas, mas não era igual para ter os mesmos direitos e condições.

IM: Encontra limitações de acessibilidade ao nível dos serviços?

RR- Ainda há muitos balcões em locais como as Finanças por exemplo que são muito altos. Eu tenho o privilégio da minha cadeira levantar em altura, mas quem não tem… Nos supermercados grandes não há dificuldades, mas nos mais pequenos quase não dá para a cadeira circular. Outro problema é a falta de casas de banho adaptadas. Mesmo quando há, como no Colombo, são demasiado pequenas. A minha cadeira só entra numa, que é a do cinema. É raro encontrar uma casa de banho dita adaptada em que a cadeira possa circular lá dentro. Além disso, novamente, a falta de civismo das pessoas é um problema. Temos prioridade nas filas, é um direito, e as pessoas nem sempre aceitam isso. Às vezes não é fácil lidarmos com essas situações. As mentalidades têm de ser mudadas, enquanto isso não mudar, não andamos para a frente. O deficiente ainda tem o rótulo do coitadinho e o coitadinho é para estar em casa. É impensável eu ir para o Bairro Alto. Mas eu vou! Também trabalho muito ao nível da inclusão na Associação Casa do Chapim. Trabalhamos com pessoas com mobilidade reduzida, amigos e familiares. Damos formação nas escolas pelo país, para sensibilizar.

IM: E ao nível das práticas de lazer?

RR- Gosto de ir ao cinema e gosto muito de teatro. Nas salas há um espaço para a cadeira de rodas mas se eu vou com um grupo de amigos que não têm mobilidade reduzida, eu fico ali sozinha e o grupo de amigos vai para outra fila. Não ficamos ao pé das pessoas que vão connosco. É ridículo!

IM: ­­Então acha que é importante que quem tem mobilidade reduzida se pronuncie e envolva na luta pela melhoria e igualdade de acessos?

RR- Sim, sem dúvida. Há muitas pessoas com mobilidade reduzida que se isolam, mas se a mentalidade dessas pessoas também mudar, tudo pode ser diferente. Claro que se formos muitos a lutar pelo mesmo, acho que alguma coisa é obrigada a mudar.


Texto: Inês Maia | Fotos: Raquel Rodrigues | Edição: Lisboa (In)Acessível


Pensar as acessibilidades é tarefa de todos

10 Jun

Texto e Foto: Inês Maia | Edição: Lisboa (In)Acessível

Inês Maia, autora do texto e foto.

Inês Maia, autora do texto e foto.

Chamo-me Inês Maia, tenho 22 anos e encontro-me a concluir a licenciatura em Sociologia no ISCTE-IUL, em Lisboa. No âmbito da disciplina de Sociologia da Vida Quotidiana, aquando do debate sobre os temas dos trabalhos a desenvolver, o Professor incentivou-nos a alargar horizontes em termos de objectos de estudo, a pensar o que até aí não tínhamos pensado e a transformar em enigmas de investigação o que nos despertava curiosidade. Estava lançado o repto. Com a curiosidade sociológica aguçada aliada ao confronto com as dificuldades de circulação de uma pessoa próxima, que se encontrava na altura a necessitar de muletas para se deslocar, despertei para a temática e surgiu a primeira interrogação: como será circular quotidianamente com mobilidade reduzida  numa cidade como Lisboa?

Aquilo sobre o qual até aí nunca tinha pensado, impôs-se de rompante como uma evidência: os percursos que compõem os meus dias seriam em alguns casos impossíveis de concretizar se circulasse por exemplo numa cadeira de rodas. A partir daí cresceu o caudal de questões que veio a estar na base do trabalho e com ele surgiu o meu despertar para a justeza desta questão: As necessidades de quem tem mobilidade reduzida não andarão esquecidas por quem pensa e planeia a cidade? Como pode Lisboa ser verdadeiramente democrática no que ao usufruto do espaço público diz respeito, se quem circula com limitações na sua mobilidade se depara com tantos obstáculos? Que experiência quotidiana é esta de circular com mobilidade reduzida, por Lisboa? Afinal, como pode esta cidade ser de facto para todos?

Não tenho mobilidade reduzida e, até ter desenvolvido este trabalho, não conhecia ninguém que tivesse. Apesar de ser estudante de sociologia, de estar desperta para um conjunto de problemas sociais e de ter uma participação política activa, sou obrigada a admitir que nunca tinha pensado sobre a questão das acessibilidades. Degraus em praticamente todo o lado, elevadores avariados em estações de metro ou autocarros sem rampas, caixas multibanco demasiado altas, passeios com 2cm de altura ou restaurantes com casas de banho minúsculas não representam de facto obstáculos para mim. Contudo, representam para muitas pessoas que vivem, estudam e trabalham em Lisboa. Aquilo sobre o qual nem parava para pensar são afinal barreiras para quem circula com mobilidade reduzida. Aquilo sobre o qual nem parava para pensar são mecanismos que em muitos casos discriminam e excluem quem tem todo o direito ao usufruto da cidade. E se me apercebi que assim é, então pensar as acessibilidades passou também a ser tarefa minha. É necessário, e urgente, que todos despertemos e nos sensibilizemos perante esta questão. Todos. Com e sem mobilidade reduzida. Porque participar nesta batalha é defender a igualdade e o respeito pelo outro; é exigir dignidade, independência e autonomia para a vida de quem tem mobilidade reduzida; é construir Lisboa como uma cidade verdadeiramente para todos.

LONDRES

30 Mar

Uma cidade com passeios “de se lhe tirar o chapéu”!

Fotografia que mostra em destaque uma estátua do urso Paddington, um personagem clássico da literatura infantil do Reino Unido, com a sua gabardine amarela, a carregar do lado esquerdo a sua pasta amarela, e do lado direito a tirar o seu chapéu também amarelo. Ao redor vê-se o piso cinzento betonado, molhado da chuva mas em bom estado de conservação. Como pano de fundo vê-se uma parte da catedral de Saint Paul.

LONDRES é uma das cidades europeias de referência ao nível das condições de acessibilidade pedonal que oferece.

A maioria dos seus troços pedonais, quer das zonas históricas como das habitacionais, são regra geral largos, de betão bem aplanado e em óptimo estado de conservação, e têm o mobiliário urbano devidamente ordenado, criando-se assim uma via contínua, confortável e sem constrangimentos de locomoção para os peões.

Foto que mostra treze peões a atravessar a London Bridge (Ponte de Londres), em direcção ao centro de trabalho da cidade.  Foto retirada do google.

As passagens de peões estão naturalmente niveladas, com uma sinalização táctil bem destacada, e com a presença contínua das “tradicionais” indicações de segurança “look left” (olhe para a esquerda) e “look right” (olhe para a direita). A sinalização sonora nas passageiras também é uma constante.

Fotografia de parte do passeio onde se destaca o piso táctil cizento e a indicação Look Left, ou seja, olhe para a esquerda.

Uma especificidade existente sobretudo nas zonas turísticas da cidade, que é de extrema importância e utilidade, são os frequentes mapas locais instalados nos passeios, que indicam o sítio exacto onde o peão se encontra, bem como toda a área e vias envolventes, destacando os locais turísticos de maior interesse. Um exemplo destes mapas é o evidenciad0 na seguinte foto à esquerda.  

A foto do lado esquerdo mostra um dos mapas locais da cidade situado na margem esquerda do passeio, em betão e perfeitamente aplanado. A foto do lado direito mostra peões a circularem por uma das zonas de londres apelidada de Chinatown, que tem um passeio  empedrado bem aplanado.

Estas condições “de se lhe tirar o chapéu” garantem o conforto e a segurança aos milhões de peões que transitam diariamente pela extensa cidade, independentemente das suas capacidades motoras e de deslocação.

Acessibilidade na Lusófona?

5 Nov

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Madalena e Carina Brandão encontram-se atualmente a frequentar o mestrado na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, no Campo Grande, em Lisboa, e relatam-nos qual a sua experiência ao nível dos acessos neste estabelecimento de ensino.

A Lusófona é constituída por vários edifícios antigos de dois a três andares, e por isso, apresenta grandes desafios de acessibilidade, o que não a impede de ter muitos estudantes com mobilidade reduzida, e de ter vindo a adotar inúmeras medidas para fazer face a estas dificuldades, nomeadamente:

  • A construção de rampas de acesso às salas nos pisos inferiores dos edifícios, que no entanto são, infelizmente, demasiado inclinadas, não cumprindo a lei e, a implementação de rampas de inclinação adequada às salas de estudo
  • A instalação de WC´s adaptados, de elevador num dos edifícios e, de uma Lagarta para subir escadas para os laboratórios; e,
  • O rebaixamento de alguns passeios.

Tanto os professores como funcionários da universidade são de uma forma geral muito humanos e sensíveis a estas questões, fazendo “de tudo” para que as pessoas com mobilidade reduzida ultrapassem as dificuldades com que se deparam e vivam com o máximo conforto, como o demonstram as seguintes experiências positivas por nós vivenciadas no espaço académico:

  1. A cedência de dois lugares de estacionamento gratuito, após a nossa reivindicação pela falta de condições de acessibilidade no exterior e interior da universidade, e de relatarmos os constrangimentos ocasionados pelas constantes avarias nas rampas dos autocarros da Carris, e outras dificuldades que temos aquando da utilização dos transportes públicos;
  2. A colocação de uma rampa de acesso ao edifício da secretaria da escola de psicologia, como uma alternativa ao elevado degrau pré-existente, causa pela qual as pessoas com mobilidade reduzida tinham que ser atendidas no exterior do edifício. Esta medida foi concretizada após a nossa contestação, questionando-nos perplexas como é que anteriormente nenhuma pessoa com mobilidade reduzida a frequentar a universidade e o curso de psicologia, havia insistido nesta reclamação…?

Enquanto estes dois requisitos de acessibilidade nos foram rapidamente atendidos e facilmente concretizadas, continuamos a ter que enfrentar determinadas dificuldades, como o acesso à sala de aulas, que é feito por uma rampa inclinada ou a deslocação acompanhada aos cafés e ao wc, uma vez que estes estabelecimentos estão situados numa zona que não é totalmente plana e, os cafés têm degraus à entrada…. Felizmente estamos rodeadas de ótimos colegas que nos ajudam com agrado a ultrapassar todas estas adversidades, no entanto, pensamos que “todos gostamos de ter a nossa autonomia”.

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