Viver com mobilidade reduzida em Lx

6 Mar

O testemunho de Madalena Brandão

Madalena Brandão, uma das co-autoras deste blogue, dá o seu testemunho pessoal sobre a temática das (in)acessibilidades, e de como esta é central na sua vida.

foto testemunho1

Olá! Sou a Madalena Brandão, tenho 29 anos e nasci com uma deficiência neuromuscular denominada por Polineuropatia Muscular Hereditária. Aos 14 anos perdi a mobilidade nas pernas passando a deslocar-me em cadeira-de-rodas. Por estranho que pareça, para mim foi um alívio, pois com a cadeira passei a poder deslocar-me para todo o lado. Assisti dolorosamente à evolução da minha deficiência, no entanto, consegui superar as maiores dificuldades com apoio constante da família e amigos e, frequentei a escola com relativa regularidade. Hoje sou licenciada em Psicologia Social e das Organizações e, apesar de neste momento estar desempregada, desenvolvo várias actividades paralelas (e.g. realização de pós-graduação e voluntariado).

Um dos sonhos de vida que conquistei com maior paixão foi o de tirar a carta de condução e, adquirir o meu próprio carro. Este foi sendo adaptado com ajudas técnicas facilitadoras da condução e da entrada e saída da viatura, financiadas pela segurança social. A aquisição destes apoios não foi um processo fácil, implicou muita burocracia e esteve dependente da existência de verbas, no entanto, nunca desanimei e batalhei sempre por aquilo que queria. Com esta conquista foi-me oferecida uma maior autonomia e proporcionada a independência de que me orgulho gozar presentemente.

foto testemunho2

Contudo, ser uma pessoa com mobilidade reduzida em Portugal, não é fácil. Ao longo de toda a minha vida deparei-me com múltiplas dificuldades em relação às (in) acessibilidades oferecidas pelos espaços e edifícios públicos, transportes ou edifícios privados. Por vezes sinto-me como um E.T no Planeta Terra.

Em relação aos transportes públicos, apesar da existência de alguns autocarros acessíveis, estes ainda não são em número suficiente e/ou não cobrem toda a cidade (Lisboa) ou o país todo, limitando assim a deslocação livre dos cidadãos com mobilidade reduzida. Viajar de metro em Lisboa também pode consistir numa enorme aventura. Algumas estações de metro estão providas de elevadores, nomeadamente as mais recentes, no entanto e frequentemente, estes equipamentos estão avariados ou fora de serviço, facto que já me ocasionou experiências muito infelizes, a ponto de me deixarem completamente frustrada.

São raros os edifícios públicos e/ou privados que se encontram adaptados e que respeitam as normas de acessibilidade. Existem no entanto alguns edifícios “que se dizem adaptados” mas que infelizmente apenas o estão parcialmente ou coexistem com inúmeras falhas e inconsistências. Desta forma, estou quase sempre dependente dos amigos e familiares para aceder aos edifícios e/ou frequentemente sou atendida na rua e/ou tenho que ficar na rua à espera enquanto a minha mãe/amigo resolvem o assunto em questão. Quando esta situação acontece sinto-me um verdadeiro “cão”, mas tento não pensar muito no assunto, erguer a cabeça e “bola para frente”.

Uma outra aventura radical e perigosa a que me sujeito constantemente é ter de circular pela estrada, em vez do passeio, porque este está ocupado com carros mal estacionados ou outros obstáculos (caso muito frequente!) ou, porque o passeio junto à passadeira não está nivelado (talvez ainda mais frequente!).

O planeamento, escolha e usufruto de férias no país também me é dificultado pela reduzida oferta de estabelecimentos e/ou locais adaptados e acessíveis e, simultaneamente, económicos. Um exemplo a referir são os Parques de Campismo Municipais que na sua maioria não têm bungalows adaptados.

Resumindo e em jeito de desabafo, não é fácil viver em Lisboa, com tantos constrangimentos causados pela escassez generalizada de acessibilidades. A existência de espaços, equipamentos e serviços acessíveis é pois para mim de grande centralidade e importância e, revela-se assim como uma das causas por que luto mais afincadamente, com o objectivo de no futuro poder viver numa cidade repleta de sol e de mar, mais acessível para todos”.

Madalena Brandão, 5 de Março de 2013

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4 Respostas to “Viver com mobilidade reduzida em Lx”

  1. Rui Pereira 5 MarçoUTC000 às 141030 #

    Olá Madalena Brandão,

    Li o seu comentário (desabafo), contra as pessoas com mobilidade reduzida.
    É uma realidade, mas as infelizmente as nossas cidades não foram construídas para pessoas como a Madalena. Contudo, as pessoas ditas “normais”, têm uma responsabilidade acrescida de tornar as nossas cidades e por conseguinte os países mais acolhedores e quebrando ou eliminando barreiras.
    Uma vez perguntei a um presidente de junta de freguesia, o porquê de ainda se construir urbanizações novas onde ainda persiste a teimosia de dificultar o acesso a pessoas com mobilidade reduzida?
    E a resposta foi muito simples, à 20 anos atrás estávamos muito pouco sensibilizados para esta barreira, também o tempo que se leva a erguer uma urbanização “burocracia”, permite que quando a obra comece já exista novas regras e muitas vezes é preferível avançar do que recuar e o projeto estar na gaveta mais 10 ou 15 anos.
    Recentemente fui informado que numa nova urbanização do Município de Odivelas, fazendo modificações sem nexo levou a que fossem construídas rampas de acesso até respetiva entrada do prédio e depois ter dois ou três degraus para se ter acesso aos elevadores.
    Ter um cidade adaptada a todos, não será infelizmente para um curto prazo, mas, com a persistência vamos conseguindo subir degraus.

    Cumprimentos,

    Rui Pereira

  2. Marco Roquete Ramos 5 MarçoUTC000 às 141230 #

    Posso adicionar matéria do meu próprio blogue?:
    http://bolineiro.blogspot.pt/

    • Filipa Sena Marcos 5 MarçoUTC000 às 140330 #

      Caro Marco Ramos,
      Os conteúdos a apresentar neste blogue terão que ser sempre avaliados, escolhidos e editados pelos seus autores e serão sempre imagens/artigos relacionados exclusivamente com as acessibilidades.
      Se tiver algum algum conteúdo pertinente que gostasse ver apresentado ou desenvolvido no nosso blogue, envie-nos essa informação para o seguinte email: lisboainacesivel@gmail.com.
      Responderemos-lhe com a maior brevidade possível.
      Muito obrigada pelo interesse e atenção dedicados ao nosso blogue.
      Continue a segui-lo com atenção e a interagir connosco.
      Melhores cumprimentos,
      Filipa Sena Marcos, Madalena Brandão e Hélder Mestre

    • Filipa Sena Marcos 5 MarçoUTC000 às 140330 #

      Trataremos de conhecer assim que possível o seu blogue!

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