Testemunho de Marisa Lino (Alverca)

18 Abr

Marisa Lino foi incentivada a partilhar connosco o seu testemunho enquanto pessoa com mobilidade reduzida, que se desloca em cadeira-de-rodas, e que lida diariamente com a problemática das (in)acessibilidades. Transcrevemos de seguida o seu testemunho na íntegra, acompanhado de um vídeo bastante ilustrativo.

VÍDEO

«Ontem disse-vos que hoje iria filmar o trajeto da minha casa para a estação de comboio e o respectivo retorno, mas infelizmente só consegui filmar da minha casa para a estação, mas o percurso para a minha casa é o inverso e do lado contrário.

Este é o percurso que faço todos os dias para me deslocar da minha casa para a estação, pois para ir trabalhar tenho de apanhar o comboio. O percurso é feito de manhã e à tardinha. É preciso salientar que existe um passeio que vai lá ter diretamente, mas o mesmo não está acessível, nem na entrada, nem no meio, nem no fim. Existe mesmo uma zona, junto a umas vivendas em que o passeio está inclinado (no vídeo não se consegue ver). Ora se eu for nesse passeio inclinado que mais parece aquele do “Vale tudo” com a minha cadeira a mesma iria derrapar e eu iria ficar com a cara espetada ou num poste ou então iria ser o próximo cartaz exposto em Alverca porque bati com a cara num vidro de um carro. Lol. 

Posto isto, pela falta de acessibilidade, melhor, falta de humanidade, sou obrigada a ir pela estrada, onde estou sujeita a ir à boleia com algum carro (sem o mesmo se aperceber), ficar encalhada num buraco ou então abrirem a porta de um carro, dos muitos mal estacionados e a entrar nele sem pedir licença… Lol. 

Já ouvi tantas buzinadelas que não têm noção. E gestos do tipo “sai daí, vai para o passeio”??? Só tenho vontade de rir e mesmo assim riu-me sozinha e penso: “Será que não vêm que não consigo andar no passeio”? Mas o que posso fazer? Eu tenho de ir trabalhar, eu quero ir trabalhar, por isso se não dá pelo passeio, olha, vai mesmo pela estrada… 

Agora veio o sol, escurece mais tarde, estou feliz, já me vêm melhor… Porque de noite, de noite falta-me o ar, vou no meu caminho para casa a rezar a todos os santinhos para que nada me aconteça, nem a qualquer outra pessoa, como é óbvio.

Já escrevi para o Sr. Presidente, Afonso Costa, pedi-lhe encarecidamente (parece que neste país se precisarmos de alguma coisa temos de pedir “por favor”, como se eu já não tivesse de ter direito obrigatoriamente) para que mandasse arranjar os passeios, não só e apenas para minha segurança bem como a dos automobilistas, mas a resposta foi que essas obras estão dependentes das obras que estão a ser feitas no descampado. Ah e também disseram que têm feito melhoramentos como colocarem corrimões e rebaixarem os passeios… Lol? Corrimões? Onde? Ainda não vi nenhum, mas se alguém que more em Alverca já tiver visto peço o favor de tirarem foto e me mandarem, pode ser?  E, passeios rebaixados ou inclinados e altos? Não estou a perceber mas peço a essa gente que venha comigo para vermos quem cai primeiro… Ok! Então quando é que eu vou poder andar pelo passeio como uma pessoa normal? Sim, porque este país é feito de categorias, ou seja: os pobres, os ricos, os sem-abrigo e os deficientes… Ah e os “ditos normais” como costumam dizer. Lol. Adoro ser anormal então, já que me diferenciam apenas por andar numa cadeira de rodas… Mentalidades, fazer o quê? 

Falei de mim, mas como eu há muitos. Muitos que precisam de nada para conseguirem fazer tudo… Há também (e eu não descrimino ninguém), pessoas de canadianas, pessoas idosas com bengalas, mães com carrinhos de bebé… Eu não sou invejosa, não peço apenas para mim. É este o meu dia a dia… E depois desta turbulência que levo até chegar à estação ainda tenho de apanhar um comboio para Entrecampos e depois uma carrinha para Telheiras, depois ainda tenho de trabalhar e depois voltar para casa e voltar a passar por tudo de novo… Só de escrever estou cansada! 

Moral da história? Chego à noite feita em cacos e cansada da cabeça devido ao esforço observatório que faço para não me acontecer nada… 

P.S. Desculpem a má qualidade do vídeo mas o meu telemóvel não deu para mais. Lol. Sim, apesar de tudo, de estar toda partida ainda consigo sorrir… 😀

Se pudessem agradecia que passassem a palavra, pode ser que chegue ao Sr. Presidente ou amigos… Lol.

Muito obrigada por toda a vossa força! 🙂 »

Marisa Lino, 17 de Abril de 2013

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Uma resposta to “Testemunho de Marisa Lino (Alverca)”

  1. Fabien 5 AbrilUTC000 às 141230 #

    Pois!.. Lamento dizer mas também me acontece o mesmo na vila de Benavente, sou obrigado a andar nas estrada porque poucos passeios tem rampas e os que tem rampa tem tanta inclinação que para subir ou venho bem mandado para subir de uma vez, ou viro a cadeira ao contrario (como ja me aconteceu), quando ando na rua de cadeira, até tenho que meter um elastico a prender os pés por haver tantos buracos que entro em espasmos… enfim! Ainda ontem tive que ir ao departamento das finanças e, pela segunda vez voltei a pedir o livro de reclamações, pois a cerce de 1 ano pedi para reclamar a falta de acesso por ter um degau altissimo, em que me responderem por carta que iria ser resolvido esse problema de acessibilidade em breve, afinal “breve” é quanto tempo pergunto eu??.. Chego a conclusão que os livros de reclamação só tem validade para empresas particulares, porque já fiz em varios departamentos publicos e nada foi alterado, afinal essas entidades para que servem? Parte dos meus impostos são supostamente para defesa do cidadâo, ou eu não pertenco a essa classe por movimentar-me em cadeira de rodas? É que eu trabalho, sou cumpridor das leis que me são impostas e pago os meus impostos, mas não será estas mentalidades retrogadas dos nossos governantes e autarcas que irão mandar abaixo, isto é apenas um desabafo quando leio estes testemunhos que me fazem lembrar também situações desagradaveis que vivo no dia a dia.

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