Autocarros da CARRIS Acessíveis?

17 Maio

Hoje demos a palavra ao nosso amigo Diogo Martins, web developer e entusiasta da mobilidade sustentável.

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«Não parece, não parece mesmo nada mas a Carris tem uma das melhores e mais modernas frotas de autocarros da Europa. Parece mentira mas é a mais pura das verdades. No entanto, a frota da Carris tem uma grave falha. Nem todos os autocarros estão aptos a transportar cadeiras de rodas. Apenas cerca de 50% da sua frota está adaptada (embora este valor varie por questões de gestão de frota). Esta situação tem várias origens. Desde o atraso do país, que faz com que a Carris tenha chegado tarde à questão das acessibilidades, quando as suas congéneres já estavam a trabalhar no assunto há vários anos (as primeiras rampas em autocarros datam dos anos 80), até ao eterno problema dos transportes… a falta de verbas. Também lhe chamaria “falta de vontade de gastar dinheiro onde é preciso em detrimento de auto-estradas”.

Os autocarros da Carris têm uma tipologia específica, são autocarros urbanos e assumem diversos formatos, desde os “mini-bus” até aos autocarros articulados, onde o elemento comum consiste na existência de um espaço contado ao milímetro e que está reservado a colocar o máximo de tecnologia no mínimo espaço disponível.

Que falta então fazer para que o resto da frota da Carris seja adaptada?

Dinheiro. É precisamente aí que as coisas se complicam. Os autocarros não são equipamentos baratos. Os custos podem ir dos 100 mil euros aos 300 ou 350 mil euros muito facilmente (não incluo aqui os “mini-bus”).

Mas o que é que torna, realmente, um autocarro acessível?

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O piso rebaixado é o início, facilita a entrada e saída das pessoas, independentemente de terem ou não alguma dificuldade, mas também facilita a instalação de rampas.

O interior tem de ter uma área de pelo menos 1,5mx1,5m para que as cadeiras de rodas possam ser confortável e rapidamente manobradas. Neste espaço circunscrito tem de ser instalado um sistema de retenção, com suporte almofadado e cintos de segurança, a cumprir as normas ISO específicas e a passar na aprovação TUV, além de testes de impacto e segurança. O passageiro é sempre livre de escolher se quer usar o sistema de retenção ou não.

Os autocarros mais modernos têm piso rebaixado, isto significa que parte do autocarro é totalmente lisa e sem degraus para entrar ou sair, além disso existe  o sistema de kneeling (“ajoelhamento”), que baixa, parcialmente ou totalmente, o autocarro, e que permite tornar o autocarro ainda mais acessível, requerendo um menor esforço por parte do utilizador para entrar e sair.

Todos estes equipamentos ocupam espaço, e é este motivo que torna os autocarros urbanos inadaptáveis, ou seja, para serem acessíveis têm de ser novos e o equipamento instalado de raiz.

Para um autocarro ser acessível a todos precisa ainda de ter disponível informação visual e sonora (informação actualmente ainda mais escassa que as rampas), que permita uma orientação capaz às pessoas com deficiência auditiva e visual, e que no fundo favorece a orientação de todos os utilizadores. 

Rampas manuais ou eléctricas?

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Eléctricas! As rampas manuais foram inicialmente a opção favorita da Carris, uma vez que devido ao péssimo piso das ruas de Lisboa, as rampas eléctricas se avariavam muito facilmente. Hoje em dia é utilizada uma tecnologia de fixação melhorada, com supressão de vibrações e de maior resistência dos equipamentos, que permite que as rampas eléctricas aguentem ser apedrejadas e que resistam à extrema vibração provocada pelo piso. No entanto precisam de manutenção recorrente para preservarem a sua funcionalidade.

As rampas eléctricas têm a vantagem de o motorista não precisar de sair do lugar, reduzindo o tempo gasto na entrada e saída dos passageiros com mobilidade reduzida, nomeadamente aqueles em cadeiras de rodas, e evita outros constrangimentos a estes passageiros. Parecendo que não… “dá jeito”. 

Mas há assim tantas pessoas em cadeira de rodas que andem de autocarro?

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Há, mas não têm confiança no transporte. A confiança é essencial para que as pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida usem os autocarros. Se numa carreira com frequências de 30min falhar um autocarro acessível, o tempo de espera para apanhar o próximo veículo aumenta para 1 hora (o tempo de espera é calculado entre o tempo de passagem do último autocarro e o próximo), ou então, se for mesmo o último, estes passageiros sujeitam-se a ficarem… apeados.

Formação dos motoristas é essencial!

Os motoristas devem estar aptos a saber lidar com as necessidades das pessoas com mobilidade reduzida, aumentando a sua confiança na utilização dos autocarros, com o consequente e inevitável aumento de frequência de utilização, factor benéfico para as duas partes interessadas (i.e. carris e utentes).

Quais são os autocarros acessíveis da Carris?

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A Carris adoptou o sistema de afectar os autocarros adaptados a determinadas carreiras, e certificá-las, o que garante aos passageiros que as carreiras marcadas como acessíveis estão realmente adaptadas e são mesmo acessíveis, sendo que, no caso de quaisquer falhas… os passageiros podem sempre reclamar!

São 25 as carreiras acessíveis da Carris, respectivamente: 701, 703, 705, 716, 720, 722, 726, 728*1, 729, 730, 735, 736, 744, 747, 755, 756, 767, 770, 778, 779, 781, 782, 783, 794 e 798. *1 É garantida afetação mínima de 50% dos veículos em viagens intercaladas, desta carreira.

 Só a Carris? … Mas e as outras operadoras de transporte? …

A Carris é a empresa pública que opera em Lisboa, “alvo” escolhido deste blogue. No entanto, existem ainda umas cerca de 5 empresas cujas carreiras circulam pela capital, as chamadas carreiras de penetração, mas… são privadas.

O serem privadas faz com que optem pelo mais barato, e o mais barato nem sempre é o melhor para as acessibilidades. Rampas manuais (se funcionarem) são uma banalidade utilizada para reduzir os custos de compra e manutenção, bem como a compra (totalmente desregulada) de autocarros em segunda mão.

A criação de regras básicas de conforto e segurança nos autocarros faria com que houvesse um maior leque de opções de transporte, onde os passageiros não tivessem que ficar apeados nas paragens porque a empresa do concelho do lado não tem autocarros acessíveis ou, quando os tem, não são devidamente distribuídos pelas carreiras.

Na Carris, a aposta na contínua renovação de frota (que tem mais benefícios para além das acessibilidades) permitiria ter uma maior acessibilidade e desfrutar de um dos meios de transporte mais úteis dentro da cidade.

Infelizmente ao longo dos anos o Estado não conseguiu ver mais do que carros, desvalorizando os transportes que precisam de qualidade e conforto, acessibilidades e de servir as pessoas.

Penso que uma visão deturpada do que significa “Mobilidade Sustentável” é o que impede actualmente o contínuo progresso e evolução, favoráveis às acessibilidades nos transportes».

Diogo Martins

PS: Toda a informação das carreiras acessíveis foi retirada do site da Carris. Se quiser consultar estas ou outras informações “in loco” faça-o através do seguinte endereço: http://www.carris.pt/pt/mobilidade-reduzida/

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2 Respostas to “Autocarros da CARRIS Acessíveis?”

  1. Manuela Ralha 5 MaioUTC000 às 140530 #

    Excelente artigo, como sempre. Muito útil e põe exactamente o dedo na ferida. Continuem!

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