7 Mitos sobre Deficiência & Acessibilidades

9 Dez

O Grupo de Reflexão Media e Deficiência editou recentemente o livro “A Deficiência na Comunicação Social – Guia de Boas Práticas para Jornalistas”, com texto da autoria de Dora Alexandre, jornalista e chefe de redacção do magazine Consigo da RTP2, que vivamente recomendamos e do qual extraímos o pertinente capítulo intitulado “Mitos em torno da deficiência veiculados pela comunicação social”. As palavras entre parêntesis rectos, [  ], correspondem a pequenos acrescentos feitos pela nossa equipa à posteriori. 

Capa do livro em cima mencionado.

Capa do livro em cima mencionado.

1. As pessoas com deficiência só se interessam por assuntos ligados à deficiência.

Muitas pessoas com deficiência terão certamente um interesse acrescido por esta temática, porque se identificam com ela mas, como os demais cidadãos, têm uma variada panóplia de interesses. É importante que os jornalistas tenham em mente que entre o seu público leitor/espectador/ouvinte estão pessoas com deficiência ou incapacidade e, consequentemente é importante incluírem no seu trabalho informações que sejam relevantes e acessíveis para estas pessoas.

2. As pessoas com deficiência não são activas.

Poderá ser verdade nos casos mais graves, ou nos casos em que o meio envolvente não oferece condições que permitam a autonomia No entanto, em regra, as pessoas com deficiência trabalham, fazem desporto, viajam, constituem família e podem ter uma vida tão activa como qualquer outro cidadão. Cada caso é um caso, mas a inactividade não é, de forma alguma, a regra. Apenas é, talvez, mais vezes mostrada na comunicação social.

3. As pessoas com Paralisia Cerebral têm deficiência intelectual.

Pode acontecer, mas não é a regra. A designação deste problema – Paralisia Cerebral – pode levar a esse engano, mas o que se passa na realidade é que a zona do cérebro que coordena certas partes do corpo (os movimentos, fala…) está afectada. Portanto, trata-se de um problema eminentemente físico, e não intelectual ou mental. É importante ter isto em conta na forma como lidamos com pessoas que têm este problema. Muitas vezes, a articulação das palavras está comprometida e é difícil compreender o que dizem, mas é importante lembrar que se trata apenas de uma questão física.

4. Acessibilidade [só] significa ausência de barreiras arquitectónicas.

Também, mas não só. A acessibilidade é um conceito muito complexo e diversificado – tanto quanto as necessidades especiais de cada pessoa. Pode ser física, sensorial, ou ao nível da informação. Damos um exemplo: em Portugal, existe o GAM, Grupo para a Acessibilidade aos Museus, um conjunto de profissionais de diversos espaços museológicos que procuram torná-los acessíveis a todos os públicos. E, por isso, muitos museus portugueses já contemplam oferta acessível a todos os públicos – além da ausência de barreiras físicas, ou das alternativas para transpor estas barreiras, existem legendas em Braille; peças para tocar por quem não as pode ver; áudio-guias que as explicam (e que podem ser úteis a pessoas com e sem deficiência visual); pavimento táctil no chão para orientar quem não vê e usa bengala; vídeo-guias [interactivos] com língua gestual, a explicar as peças a pessoas surdas, catálogos em Braille, ou em linguagem fácil, para ser compreendida por todos (pessoas com deficiência intelectual, idosos pouco letrados, crianças…). A acessibilidade é uma mais-valia para todos, pois facilita a circulação e a apreensão de conteúdos por todos, sem excluir ninguém.

5. A acessibilidade é importante apenas para pessoas com deficiência.

Não é verdade. No que toca à acessibilidade física, é facilitadora para pessoas com deficiência e – não esquecer – seus acompanhantes, que assim evitam esforços extra; é ainda facilitadora para pessoas idosas, cuja agilidade já não é o que era; para quem tem uma limitação física temporária, por exemplo por ter partido um membro inferior; para quem empurra carrinhos de bebés, ou transporta pesadas malas com (ou sem) rodas; facilita cargas e descargas de material… enfim, a acessibilidade física facilita a vida de muitas pessoas. A acessibilidade na informação também serve todas as pessoas – um texto em linguagem fácil pode ser entendido por todos sem excepção, e é especialmente adequado para quem tem deficiência intelectual, baixa literacia, ou ainda para crianças. A acessibilidade sensorial também pode ser utilizada por Todos ou, mesmo que não o seja, não interfere nem prejudica quem não a utiliza.

6. As pessoas com deficiência têm quase sempre poucos recursos financeiros.

Essa é uma ideia muito veiculada pelos casos – dramáticos – apresentados na comunicação social. Mas não corresponde necessariamente à realidade. As crianças com deficiência nascem em qualquer família, as pessoas milionárias também têm acidentes, envelhecem e perdem faculdades, e larga fatia dos cidadãos com deficiência trabalha, portanto tem tantos recursos como a restante população. [É contudo verdade que existem frequentemente despesas elevadas, acrescidas ao facto de se ter qualquer tipo de deficiência, como a necessidade de ajudas técnicas/produtos de apoio, terapias, operações específicas e especializadas… e que mesmo pessoas com razoáveis recursos têm dificuldade em custear].

7. Tratar o tema da deficiência é deprimente.

Se apenas nos centrarmos em casos extremos, poderá ser, claro. A dor alheia toca-nos inevitavelmente. Mas a deficiência não se resume a casos extremos e dramáticos (muitas vezes associados a pobreza), e é um erro pensar que a maioria das pessoas com limitações físicas ou sensoriais vive amargurada com o facto de terem uma deficiência. Trabalham, têm família, hobbies, e fazem o mesmo que os restantes cidadãos – apenas de maneira diferente. Há pessoas com deficiência a praticar vela, ténis, canoagem, basquetebol, a trabalhar em áreas tão diferentes como a área jurídica, o cinema e a televisão, enologia, ou a dar aulas ou consultas médicas, a fazer voluntariado para ajudar outras pessoas… a ultrapassar limitações e a ter vidas interessantes!

***Embora Dora Alexandre tenha escrito o livro supra-mencionado com o novo acordo ortográfico, reescrevemos o seu texto com o antigo acordo, para haver concordância de forma escrita e manter o estilo preferencialmente utilizado pela editora deste post.***

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