Visita ao Parlamento: Missão quase (im)possível!

10 Jan

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A proposta surgiu promissora e tentadora. A equipa Lisboa (In)acessível ia participar numa visita guiada à Assembleia da República.

À hora combinada chegámos ao estacionamento. Um simpático agente da PSP indicava-nos os lugares reservados a pessoas com mobilidade reduzida. Estes situavam-se em frente à entrada destinada aos visitantes.

A entrada no edifício fez-se facilmente, através de um acesso nivelado, que não era, no entanto, muito largo. As expetativas eram elevadas!

Aguardámos pelo início da visita numa sala onde os vários visitantes se foram concentrando.

Éramos um grupo com cerca de 40 pessoas, em que 3 eram jovens com deficiência visual, e outros 3 deslocavam-se em cadeira de rodas. De referir que as 3 cadeiras eram manuais.

Enquanto aguardávamos, aproveitámos para iniciar a avaliação do espaço começando pelas casas de banho. Encontrámos umas instalações bem adaptadas, com os equipamentos essenciais e boa área. Tratava-se, no entanto, de apenas uma instalação. Em caso de avaria, não haveria alternativa.

Regressámos ao lobby.

Feitas as apresentações e a introdução habituais, o guia deu início à visita.

Imediatamente se nos depara o primeiro obstáculo, uma rampa extremamente inclinada que só com ajuda musculada foi possível vencer. Não entendemos este primeiro obstáculo como um aviso e mantivemos o ânimo elevado.

Seguiu-se a passagem pelo detetor de metais. Outra passagem estreita que só não levantou problemas porque ninguém levava cadeira de rodas elétrica. Nesta zona, os elementos com mobilidade reduzida foram separados do resto do grupo e encaminhados para um elevador que os iria transportar ao piso superior. Deparava-se agora pela frente um enorme corredor que a meio tinha uns inusitados degraus, sem rampa à vista. O grupo estaca e entreolha-se. Como é possível? Será que vamos todos fazer um pouco de musculação e levantar cadeiras, escada acima? Instantes mais tarde surge um funcionário apressado, com um par de rampas amovíveis. Após algumas dúvidas e dificuldade no seu manuseamento, estas são colocadas. Eis que chega o convite para fazer avançar o primeiro dos elementos cadeirantes. As calhas não estavam corretamente alinhadas e torceram perigosamente durante a ascensão dos elementos cadeirantes. A inexistente prática e falta de formação na condução de cadeiras de rodas por parte dos funcionários da Assembleia só não redundou em desgraça porque outros elementos da equipa se apressaram a ajudar. Foi, no entanto, uma aventura perigosa.

No topo dos degraus podemos constatar uma daquelas situações absurdas que nos fazem, rir, chorar e por vezes gritar: vimos uma caixa ATM, adaptada para cadeirantes, que se encontrava numa plataforma no topo de mais uns pares de degraus. Completamente acessível mas completamente inacessível!

Enfim, uma última rampa, desta vez descendente, levava-nos ao pátio interior. Aqui a rampa era de material antiderrapante mas era muito inclinada e não possuía corrimãos.

Eis-nos finalmente sob um sol radiante que obrigou a buscar os óculos de sol para permitir a contemplação do espaço que se nos deparava. Tratava-se de um pátio, rodeado por um jardim muito bem cuidado, em declive, por onde se deleitavam uns vagarosos pavões. O nosso destino, no entanto, era uma sala, antigo refeitório dos frades nos tempos idos em que o edifício era um Convento. Aí o nosso guia fez uma pequena resenha do que foi o edifício do Parlamento antes de este ser o que é hoje. A nossa atenção, no entanto, não se conseguia abstrair dos motivos segregatórios. Tratando-se de um espaço restaurado e inspirado em linhas modernas surpreendeu-nos o facto de possuir elementos audiovisuais como écrans tácteis a uma altura inacessível para quem está sentado. Mais absurdo se nos afigurou o facto de alguns destes equipamentos terem uma espécie de baú à sua frente, o que apenas servia para afastar ainda mais o leitor.

De regresso ao pátio interior constatámos a existência de 2 lugares de estacionamento para cidadãos com mobilidade reduzida, agora desativados devido à descoberta de uma cripta em pleno pátio que impedia a aproximação de veículos.

A visita incidia agora no edifício principal, aquele onde se localiza o hemiciclo. Para tal acedemos através de uma rampa lateral, esta bem integrada junto a uma entrada lateral, possuindo bom declive e materiais apropriados. Importa, no entanto, referir que a porta do edifício estava fechada e só no último momento alguém a conseguiu abrir. Por momentos imaginámo-nos, uma vez mais, a subir degraus a pulso.

Nesta segunda fase da visita foi-nos oferecido um percurso bem mais inclusivo. Não deixámos, contudo, de sentir aquela desagradável sensação de expetativa perante a próxima barreira. Esta não tardou, mas chegou-nos através de um elemento que parecia insuspeito: o guia!

Já havíamos notado que não havia da sua parte uma preocupação em esperar que o grupo se reunisse à sua volta antes de começar a falar e que não teve nunca a preocupação de garantir que os elementos com mobilidade reduzida ficassem junto de si. Além disso não tinha a preocupação de projetar a voz de modo a fazer-se ouvir com nitidez. Claro que estas caraterísticas penalizam a avaliação que cada um faz, mediante a forma como se sente prejudicado, no entanto, o que se passou foi pior. Numa zona de escadaria que divergia a meio, formando dois lanços simétricos, o grupo estacou e o guia fez a sua dissertação. Do que disse e não disse, não fazemos ideia! Os elementos com mobilidade reduzida, que haviam subido por elevador, esperavam no piso superior reunir-se ao restante grupo. A insensibilidade mais ou menos notória que se vinha evidenciado ao longo da visita foi agora marcante. Pouco havia a fazer. Aguardámos pelo fim da palestra que apenas ouvíamos em surdina e resignámo-nos. Havia que aproveitar o resto da visita.

A entrada no hemiciclo fez-se com expetativa. O sítio era estranhamente familiar, embora parecesse mais pequeno que na televisão. Simulámos vestir a pele dos deputados e tentámos ocupar alguns dos lugares da bancada. Imediatamente nos apercebemos que os corredores que dão acesso aos vários patamares concêntricos de cadeiras não permitem a passagem de uma cadeira de rodas. Uns porque são demasiado estreitos, outros porque têm degraus. Nada que não prevíssemos!

Pior cenário encontrámos na sala do Senado, uma espécie de câmara baixa do parlamento, igualmente em forma de hemiciclo. Nesta sala os elementos com mobilidade reduzida não conseguiram sequer chegar perto das cadeiras devido à existência de vários degraus no início de cada corredor.

Do resto da visita, fica a passagem pela magnífica sala dos Passos Perdidos, culminando na não menos espetacular biblioteca.

Não podemos visitar a sala dos arquivos e a loja porque estas não eram acessíveis da parte de dentro do edifício e por fora existia uma rampa muito inclinada, tendo à entrada um degrau de uns 5 cms, pelo menos.

Enfim, trata-se de um edifício centenário. Objeto de várias intervenções que, como podemos verificar, nem sempre foram as mais adequadas. Apercebemo-nos disso nas várias soluções apresentadas para tentar suprimir barreiras arquitetónicas. Houve a intervenção mas não houve o prévio estudo e aconselhamento junto de quem conhece e sabe. Ficaram assim coxas, pouco eficazes e por vezes perigosas, como constatámos.

Relativamente aos visitantes com acuidade visual comprometida, o museu da Assembleia da República disponibiliza um documento em braille sobre a visita. Ao longo do trajeto, o discurso sobre a história do edifício recorre quase na sua totalidade à visão, não existindo tempo, nem material adaptado (i.e. maquetes, réplicas, plantas, relevos esquemáticos e/ou áudio guias descritivos para exploração pelas pessoas com deficiência visual, exceto a possibilidade de serem tocados dois objetos: uma grande coroa e uma cadeira (objetos de pouca importância no seu todo). Para uma visita com cerca de 40 pessoas é muito difícil para o guia que a orienta conseguir ser ouvido, descrever e orientar a exploração de objetos a várias pessoas cegas, sendo necessário outro guia, um grupo menor de visitantes e/ou recorrer a materiais adaptados de apoio.

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