Sonho Americano

20 Fev

Durante o mês de Outubro de 2013 tive pela primeira vez a possibilidade de viver o tão aclamado sonho americano, em três localidades distintas: Rosedale, Baltimore e New York City (NYC).

Rosedale, onde vivi por três semanas, é uma pequena localidade periférica residencial, a cerca de 20 minutos de carro de Baltimore, no Estado de Maryland. Baltimore, que apenas me concedeu duas tardes de passeio, é uma cidade relativamente pequena mas populosa, com uma importância histórica única e com diversos pontos turísticos de interesse. NYC, onde passei uma semana, é uma das cidades mais populosas, carismáticas e apreciadas a nível mundial.

Durante esta [curta!] vivência pude comparar as condições de acessibilidade existentes em Portugal, e nestas três localidades americanas, as quais vou passar a relatar.

Rapidamente me apercebi que a cultura americana em geral, tal como a portuguesa (desenganemos-nos!) privilegia o poderio dos carros face aos peões…, e assim, circular de carro é a regra, e andar a pé é a excepção. Em Rosedale praticamente só vi os residentes a passear a pé com os cães dentro dos limites dos seus condomínios. Já em NYC, onde a rede de transportes é extensa e eficiente, facilitando a mobilidade dos peões, [felizmente!] esta regra não é verificada. Nela abundam os táxis mas o número de peões consegue sair vencedor.

Em Rosedale, Baltimore e NYC encontrei passeios com características excepcionais de circulação: de largura generosa e sem obstáculos a obstruir os percursos pedonais, com pisos impecavelmente tratados, construídos na sua generalidade por cimento ou betão, que, apesar de não serem materiais que acrescentam beleza, são resistentes e aderentes, ideais para a circulação de quem tem a sua mobilidade condicionada.

Reparei que quase todas as extremidades das passadeiras apresentam sinalização táctil – fundamental para os cidadãos cegos – e estão exemplarmente rebaixadas ao nível da via rodoviária, permitindo um atravessamento sem agressivos desníveis.

Em algumas passadeiras verifiquei que o botão de activação do sinal para os peões é de grandes dimensões, e, tem uma ilustração de um peão bem visível, acompanhada de texto em braille. 

Apenas em Rosedale tive dificuldade em atravessar com segurança as passadeiras, porque estão localizadas em plenos cruzamentos movimentados, e, sem as tradicionais “zebras” pintadas no chão. Em Baltimore e NYC, apesar do maior tráfego automóvel, os peões podem circular e atravessar em segurança as passadeiras.

As boas sinalizações de rua são também um atractivo a salientar. Por exemplo no Central Park, o grande pulmão verde de NYC, os percursos acessíveis a cadeiras de rodas estão indicados num placard à entrada, bem como muitas outras informações úteis aos visitantes, e, num outro cartaz está indicado um telefone através do qual se poderão requisitar áudio-guias explicativos da história do “Reservoir”, um grande lago existente no parque.

Fui surpreendida com o grande número de bancos de rua existentes em Baltimore e NYC … que contrasta com o reduzido número encontrado em Portugal, onde a população está cada vez mais envelhecida e necessitada deste bem essencial.

Em Baltimore e NYC, ao entrar em residências ou noutros espaços e serviços públicos notei que a sua largura e proporções devem ter sido [felizmente!] planeadas tendo em consideração as dimensões agigantadas do “típico homem obeso americano”, e, que existem frequentemente elevadores alternativos às escadas. No entanto, em Rosedale ou na zona histórica de Baltimore existem muitas moradias privadas com degraus à entrada e sem elevadores disponíveis.

Verifiquei também óptimas condições de acessibilidade física e de comunicação no sector cultural e religioso: uma exemplar adaptação dos espaços com rampas bem proporcionadas; wc’s adaptadas; bom material informativo sobre a oferta cultural, nos suportes papel e virtual; material expositivo em áudio-descrição e em braille, assim como, visitas guiadas especialmente preparadas para públicos com necessidades educativas especiais, com a existência de vídeo-guias e visitas efectuadas em língua gestual.

Tanto em Rosedale, como em Baltimore ou NYC, impressionou-me positivamente a quantidade de estacionamentos reservados a pessoas com mobilidade reduzida, idosos e/ou grávidas, e, a óptima sinalização destes lugares. Uma sinalização simultaneamente vertical e horizontal, bem destacada e explícita, localizada à entrada dos espaços/serviços, e com acesso imediato e garantido a estes e às suas zonas envolventes, não constituindo excepção as áreas residenciais.

Alegrei-me com o facto das casas de banho (WC´s) adaptadas serem uma prática comum, inclusive em espaços ou serviços públicos ou privados, de menores dimensões ou reduzida relevância. Estas WC´s tanto podem estar integradas numa instalação sanitária comum para pessoas com e sem limitações de mobilidade, ou constituir uma instalação sanitária específica para pessoas com a sua mobilidade condicionada, sendo que neste caso, existem frequentemente duas wc´s,  uma para cada género (ou seja, uma WC adaptada para homens e, outra WC adaptada para mulheres). [Leia a NOTA [1] presente no final deste texto!]

Em quase todas as wc´s que encontrei, tanto as adaptadas como nas “outras”, a sanita tinha uma abertura frontal APENAS no tampão (i.e. parte da sanita onde habitualmente nos sentamos, entre o tampo e o vaso sanitário), permitindo a possibilidade de escolher entre o sentar-se no tampão e usufruir deste sistema ou, levantar o tampão e sentar directamente no vaso sanitário, evitando as inconveniências deste “buraco”, como por exemplo o “entalar de pernas”… Em Portugal criticamos a colocação frequente nas Wc´s adaptadas desta abertura frontal, directamente nos vasos sanitários, e não apenas no tampão.  

Estas WC´s tinham quase todas protecções de papel disponíveis para colocar no assento da sanita. 

 

Também me alegraram os frequentes caixotes de lixo grandes e com abertura superior, contrariando os recorrentes caixotes de lixo de pedal, de reduzidas dimensões, usados de forma habitual nas WC´s adaptadas portuguesas, e as fechaduras do tipo alavanca das portas de acesso às WC´s.

No ginásio anexo ao condomínio onde vivi em Rosedale, junto à entrada das wc´s estavam dois lavatórios, cada um com duas alturas diferentes – um para ser utilizado por pessoas de maior estatura, e outro, por pessoas de menor estatura, crianças ou pessoas em cadeiras de rodas.

Ao contrário do que pensava, nem todas as estações de metro de NYC são acessíveis adaptadas, mas as que o são estão bem sinalizadas, e o seu funcionamento é garantido.

Já os autocarros estão todos adaptados. Em Rosedale e Baltimore os autocarros também estão adaptados.

Por todas estas razões posso afirmar que ao nível das acessibilidades, vivi o meu sonho americano!

Filipa Sena Marcos


NOTA [1]

A nosso ver, esta prática que poderia ser mais utilizada em Portugal, uma vez que habitualmente existe apenas um compartimento para utilização simultânea dos dois sexos.

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4 Respostas to “Sonho Americano”

  1. Fernando Cardoso 5 FevereiroUTC000 às 140230 #

    Excelente artigo. Mostra bem a diferença no que respeita ao modo como a questão da acessibilidade é abordada. Aqui a inteligência prevalece porque todos sabemos que este tipo de necessidades, mais cedo ou mais tarde, atinge quase todos. PARABENS ao Lisboa (in)acessível

    • Filipa Sena Marcos 5 FevereiroUTC000 às 141130 #

      Muito obrigada Fernando 😉
      É bem verdade o que diz. Continuemos pois juntos a mudar mentalidades!
      Melhores cumprimentos!
      P´la equipa Lisboa (In)Acessível,
      Filipa Sena Marcos

  2. Fernanda Delgado 5 FevereiroUTC000 às 141030 #

    Muitos parabéns! Além de ser um relato completo, é rigoroso e uma excelente peça jornalistica

    • Filipa Sena Marcos 5 FevereiroUTC000 às 141130 #

      Muito obrigada Fernanda 😉
      Melhores cumprimentos!
      P´la equipa Lisboa (In)Acessível,
      Filipa Sena Marcos

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