Museu da Marinha Acessível? Parte I

19 Mar

Entrevista a Olímpia Pinto 

Maria Olímpia Gordon Pinto 

Olímpia Pinto está a fazer uma visita guiada pelo Museu da Marinha a um grupo de crianças de uma escola.

Antropóloga, pós-graduada em Museologia e Património, desempenhou funções como coordenadora do Departamento de Etnologia Marítima do Museu Marítimo de Macau, de 1994 a 1996. De regresso a Portugal, manteve a ligação a Macau integrando a equipa responsável pela Presença de Macau na Expo´98, ao serviço do Governo de Macau. Foi já no período pós-Expo, entre outubro de 1998 e dezembro de 2001 que inicia a sua ligação às problemáticas das acessibilidades, desenvolvendo no Pavilhão de Macau projectos com grupos de visitantes cegos, visitantes com deficiência mental e ainda derrubando barreiras de acessibilidade social, com visitantes reclusos do Estabelecimento Prisional de Monsanto. Desde 2002 colabora no Museu de Marinha como técnica de serviço educativo, e é consultora da Fundação Casa de Macau, em Lisboa.

1. De que forma foram introduzidas as primeiras alterações à acessibilidade no Museu da Marinha (para visitantes com necessidades especiais)?

Em 1994 foram instaladas as primeiras rampas, a placa elevatória e a adaptação dos sanitários.

Em 1995 é criada a primeira exposição temporária táctil no Pavilhão das Galeotas, com legendas em braille e passadeira que permitia a visita autónoma pelas pessoas cegas.

Em 2003 é criado um percurso táctil (não autónomo) integrado na  exposição permanente, com legendas em braille e catálogos (em braille e de caracteres ampliados para pessoas de baixa visão). Este percurso é ainda hoje utilizado, apesar de ter vindo a sofrer alterações.

2. Quais foram as prioridades assumidas nesta matéria?

Relativamente a prioridades é de louvar que o Museu de Marinha se tenha antecipado à lei – Em 1994 não existia em Portugal qualquer obrigatoriedade legal nesta matéria; As normas técnicas para os edifícios públicos só serão aprovadas em 1997. A prioridade estaria portanto dirigida às pessoas, independentemente das imposições legais (também elas importantes, mas que no caso vertente não formataram a acção). Primeira sala do museu de tectos de pedra abobados e uma estátua do Infante D. Henrique ao centro.Creio que terão pesado alguns feedbacks de visitantes que à época terão manifestado essas necessidades, porém é ainda de crer que as prioridades tenham sido desenhadas em função das oportunidades: em 1994 tirando partido de projectos financiados pelo Secretariado para a Modernização Administrativa; em 1995, na sequência de um protocolo estabelecido com Centro Regional de Segurança Social de Lisboa e Vale do Tejo, através do Instituto António Feliciano de Castilho; em 2003, no quadro do Ano Europeu das Pessoas com Deficiência.

3. Qual o papel de Olímpia neste processo evolutivo?

Neste processo (de 1994 a 2003) não tive qualquer papel, pois só em 2002 chego ao Museu e só depois disso o Serviço Educativo começa a desenvolver acções específicas destinadas a visitantes portadores de deficiência, particularmente os que recebemos no âmbito de visitas escolares. O meu papel nesta matéria, desde então até ao presente, tem sido procurar desenvolver o potencial das condições criadas, gerando sempre que possível soluções e recursos que nos permitam responder às solicitações que os visitantes nos vão apresentando.

4. Actualmente em que se materializam as condições de acessibilidade presentes no Museu?

Actualmente procuramos complementar as lacunas ainda existentes com a intervenção do Serviço Educativo Placa de metal com texto em braille e dois dedos (indicador e médio) que descodificam informação em braille.que proporciona visitas “à medida” das características do grupo que vamos receber. Para este efeito, socorremo-nos de materiais de apoio e naturalmente das condições pré-existentes.

As infra-estruturas criadas no passado são ainda úteis no presente, mas a experiência e vivência das pessoas nos espaços públicos do Museu, atestam a necessidade de reformular – veja-se, a título de exemplo, o caso das legendas: não apenas as legendas em braille deveriam ser reescritas, todas as outras necessitam revisão, na forma, no conteúdo, na sua disposição espacial.

5. De que forma o público em geral poderá ter conhecimento destas condições?

Existe uma divulgação genérica (mas na minha opinião, ainda pouco incisiva!) no site do Museu. Procuramos ainda divulgar de forma mais dirigida, junto da comunidade escolar (por ser o público com quem lidamos de forma mais regular e directa).

6. Na sua opinião existem melhorias que o Museu poderia/deveria ainda adoptar nesta área?  Se sim, quais?

SIM! O Museu está ciente do diagnóstico das suas necessidades, em matéria de acessibilidades. São muitas e muito variadas as melhorias que visa adoptar a longo prazo, na medida das disponibilidades dos recursos humanos e materiais.

A médio prazo, está já em projecto a implementação do sistema de QR CODES aplicado a uma selecção significativa de peças do acervo da exposição permanente. Exemplo de um CR QUODE.Esta ferramenta permitirá facilitar a relação de todos os visitantes (portadores de deficiência ou não) com as colecções, proporcionando mais informação e em diferentes formatos: áudio-descrição, por exemplo, mas também a língua gestual poderá ter aqui uma oportunidade, permitindo assim integrar visitantes que até agora têm estado excluídos da interacção com este Museu.

A curto prazo temos no horizonte intensificar o nosso diálogo com associações e escolas de referência, que nos permitam uma construção colectiva das reformulações que paulatinamente pretendemos introduzir.

7. De uma forma geral como acha que se encontra a aplicação de medidas de Acessibilidade nos museus e espaços de cultura Portugueses?

Estão a ser dados passos interessantes neste sentido, em muitos equipamentos culturais em Portugal, que procuro acompanhar, sobretudo através da ligação ao extinto GAM – Grupo para as Acessibilidades em Museus e actual Acesso Cultura, que nos proporciona uma importantíssima plataforma de partilha e interacção.

Logótipo da Acesso Cultura

Vejo também de forma muito positiva a emergência de movimentos de cidadãos e cidadãs (de que a V. Associação é um excelente exemplo) cada vez mais conscientes de que a democracia passa também por estas questões, e da necessidade de intervir/participar/agir para mudar – este será sempre um vector importante para garantir a eficácia da aplicação das medidas.

Creio que será fundamental que qualquer medida desta natureza, em qualquer equipamento cultural, dê visibilidade não apenas às questões, mas sobretudo às pessoas e dar visibilidade às pessoas será também dar-lhes o papel de agentes d

essa mudança – quero com isto dizer que em muitas destas questões, o derrubar das barreiras mais persistentes e as grandes mudanças, só se materializarão quando as equipas de trabalho dos Museus forem também elas inclusivas e diversas.

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