Correr o troço do autocarro 728

1 Ago
Texto de Helder Mestre
Editado pelo Lisboa (In)Acessível

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O projecto “Corredor do bus”(http://www.corredordobus.com/), conduzido pelo João Campos, tem vindo a realizar diversas corridas nos troços efectuados pelos autocarros da Carris.

No passado dia 19 de Julho foi realizado o 15º percurso destas originais corridas, num dos troços mais extensos da Carris (mais de 22 Kms!), o do autocarro 728, compreendido entre o Restelo (Av. das Descobertas) e a Portela de Sacavém (Av. dos Descobrimentos).

Esta carreira atravessa toda a frente ribeirinha de Lisboa, que se estende desde a zona ocidental, que cruza o centro da capital e termina em plena zona oriental. 

Como um dos objectivos deste projecto é fazer alusão a problemas relacionados com a acessibilidade nas cidades, relativamente ao estacionamento, degradação da via, má sinalização, entre outros, o condutor do projecto convidou a participar um atleta com mobilidade reduzida, o Hélder Mestre, que faria o percurso sentado na sua cadeira de rodas propulsionada por uma handbike, e no final trocariam impressões acerca da experiência da corrida relativamente às acessibilidade nas vias pedonais do percurso.

Assim, o grupo Lisboa (In)Acessível convidou o Hélder Mestre a relatar a sua experiência após esta prova tão exigente.

Testemunho do Hélder Mestre

unnamed (3)«A primeira paragem do autocarro 728 no Restelo foi o ponto de partida estabelecido para a corrida, que foi precedida de um briefing, onde foi explicado o conceito e as regras básicas para a circulação em grupo, num aglomerado populacional tão concentrado como o de Lisboa.

Após o sinal de partida, o grupo composto por uma percentagem muito equilibrada de elementos masculinos e femininos, deslizou suavemente até Belém, zona turística por excelência.

De referir que embora o grupo privilegiasse a circulação no passeio, a presença da cadeira de rodas rapidamente obrigou à flexibilização deste conceito.

Desde o início da corrida que foram notórias as dificuldades sentidas para aceder aos passeios, devido por um lado à ausência de acessos nivelados, e por outro devido às irregularidade típica do pavimento em calçada portuguesa; ao mobiliário urbano estar a impedir a passagem (candeeiros e paragens de autocarros, por exemplo); aos estreitamentos inusitados das vias; e aos famosos buracos, fruto da degradação do pavimento e da inexistente manutenção – características  que já são bastante conhecidas da população que se desloca habitualmente em cadeira de rodas.

Ignorando o apelo da famosa pastelaria que produz os tão conhecidos pastéis de Belém, o grupo dirigiu-se para a Av.ª da Índia. O largo passeio era convidativo e circular na via era de todo desaconselhado. Aproximava-se o primeiro abastecimento, aos 5 kms. Escassos momentos bastaram para uma rápida hidratação e troca de comentários sobre o trajeto efetuado até ali. Era importante não arrefecer e não perder o ritmo porque a Portela ainda estava muito longe.

O grupo dirigiu-se rapidamente para o coração da cidade. A cadência era apenas interrompida quando a ausência de rampa obrigava a uma paragem forçada e à mobilização de um ou mais elementos para ajudar a vencer o obstáculo. A passagem na zona da baixa, entre o Cais do Sodré e o Campo das Cebolas, foi mais fluída do que se receava. O forte impacto turístico tem feito com que as condições de acessibilidade tenham melhorado, apesar de se tratar de uma zona antiga. Reflexo disso foi a possibilidade de circular no passeio, a bom ritmo, em ruas como a do Arsenal.

A reentrada na zona ribeirinha fez-se com a segunda paragem para abastecimento. Estávamos a atingir a primeira metade do percurso. O ânimo era elevado!

O recurso ao borrifador, para refrescar, foi escasso. A temperatura ambiente era muito agradável e uma brisa suave ajudava.

As condições de circulação iam melhorar significativamente. Íamos entrar na zona oriental que foi influenciada pela intervenção que se fez naquele que é agora o Parque das Nações. Vias largas, bom piso e uma via pedonal faziam o regalo do grupo.

Não esquecer, no entanto, que estávamos sujeitos aos condicionalismos do percurso da carreira 728. Assim, uns quilómetros à frente, fomos convidados a abandonar a acolhedora via pedonal e entrar numa zona antiga e onde se erguem os resquícios de antigas fábricas e grandes armazéns. A maior parte está degradada e outras foram convertidas em restaurantes. Estávamos em Marvila, na sugestiva rua do Açúcar. Devido ao escasso trânsito existente nessa zona, parte do grupo aproveitou para circular na estrada. Chegaríamos rapidamente à Praça David Leandro da Silva (Largo do Poço do Bispo), onde se situa o velhinho Clube Oriental de Lisboa, mesmo de frente para a bela frontaria dos degradados armazéns Abel Pereira da Fonseca, que serviram de palco para cenas do filme “Comboio Noturno para Lisboa”, com o famoso Jeremy Irons.

Com o regresso, uma vez mais, à zona ribeirinha, atingiam-se os 15 kms de percurso e o terceiro abastecimento. Bolachas, gel energético e líquido, garantiam uma correta reposição de nutrientes e a certeza de que o fim se aproximava de forma segura.

Imagem6A entrada no Parque das Nações trouxe de novo a calçada. Esta, ainda recente e não devidamente polida, provocava um muito desagradável estremecer da cadeira e do corpo já amassado e fatigado. Foi com agrado que ultrapassámos esta zona e chegámos a Moscavide. A paragem aos 20 kms, no quarto e último abastecimento, serviu para começar a gozar o prazer de estar a terminar tamanho desafio. Dali para a Portela, o término da carreira, foi um saltinho.

Terminámos juntos, em bloco, tal como deve ser num verdadeiro grupo. No final todos estavam felizes e animados para futuros projetos. Quando é o próximo? Perguntavam alguns. Dados finais: Distância: 22 400 metros. Duração: 2h40.

Foi uma experiência enriquecedora, não só pela superação do desafio mas também pela entreajuda que sempre houve entre o grupo e pela forma natural (inclusiva) como acolheram o elemento “diferente”.

Circular preferencialmente nas vias para peões, onde o passeio em calçada portuguesa representa a esmagadora maioria da oferta, é desgastante para o físico. O estremecer constante do corpo, resultante do piso irregular, provoca uma sensação de mal-estar e cansaço prematuros. Os troços em que era possível circular em pisos regulares como a via pedonal ou mesmo a estrada eram acolhidos com muito agrado.

Uma experiência a repetir».

Uma outra atleta, a Alexandra Palma, concedeu-nos também o seu testemunho desta prova:

«Um poste de eletricidade a meio de um passeio. Passamos diariamente por isto e nem nos damos conta das consequências. Neste percurso do Corredor do BUS, acabámos todos por viver cerca de 22km pelas ruas de Lisboa o que uma pessoa de cadeira de rodas tem de passar para se poder deslocar onde quer que seja. Aos nossos olhos diariamente convivemos com esta (triste) realidade… A cadeira não passa nem de um lado nem do outro… Foi talvez o que mais me chamou a atenção durante o treino. O Hélder, por exemplo na Av.ª da Índia, onde está a decorrer uma obra de rua, e foi deixado apenas meia dúzia de centímetros para os peões, teve de fazer o percurso pela estrada de frente para os carros. Infelizmente, a sociedade mal se apercebe destes “detalhes”. Este percurso foi muito compensador pois serviu para pensar duas vezes, por exemplo quando estacionamos o carro em cima do passeio só para o termos mais próximo de casa ou mais perto da entrada do supermercado… Para mim, a título pessoal, estes 22km fizeram-me começar a ter uma visão mais alargada deste problema».

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