Viver em Lisboa é uma aventura!

17 Set

Testemunho de vida

Texto escrito por Carla Oliveira & 
Editado por Lisboa (In)Acessível

Carla Oliveira sentada na sua cadeira de rodas, num jardim,  de frente para a foto.

O meu nome é Carla Oliveira e tenho 38 anos.

Estou a terminar uma Licenciatura em Contabilidade e Administração e ao mesmo tempo estou a trabalhar num call center em part-time para conseguir suportar as despesas.

Ando de cadeira de rodas eléctrica porque nasci com Osteogénese Imperfeita (mais conhecida por Doença dos Ossos de Vidro).

Viver em Lisboa não é propriamente um mar de rosas nem tão fácil como possa parecer.

Digo isto porque vivo diariamente na pele o que é precisar de ir a qualquer lado e ter de sistematicamente planear e escolher qual o caminho ou o transporte que preciso tomar para conseguir chegar ao meu destino, algo  com que as pessoas ditas “normais” não têm de se preocupar.

Se for “a pé” (cadeira de rodas) tenho de conhecer primeiramente o caminho para saber se posso ir por ai; se posso ir pelo passeio e se este tem condições para mim (se é rebaixado, se não tem buracos ou pedras soltas, se não é inclinado, se não tem obstáculos), ou se sou obrigada a ir pela estrada sujeita às velocidades dos carros e ter um acidente, ou, às palavras, atitudes e comportamentos menos próprios dos condutores.

Se for de transportes públicos estou sempre condicionada porque nem todos são acessíveis. Os auAutocarro da carris com a rampa de acesso aberta para o exterior.tocarros da Carris, mesmo os acessíveis,  colocam-me em permanente sobressalto devido às avarias constantes das suas rampas, que me fazem perder tempo e chegar atrasada. Se quero viajar de metro estou limitada às estações que têm elevadores – que infelizmente são ainda muito poucas – constantemente avariados devido ao uso abusivo por parte de quem deles não necessita, e sou obrigada a ter que pedir ajuda aos operadores, o que não me permite ser independente. Além disso, para falar com os operadores tenho que  carregar num botão localizado a uma altura consideravelmente alta para quem está sentado numa cadeira de rodas, e que está frequentemente avariado – o que me impede de usufruir desse apoio, e em certas estações, os operadores não estão do lado onde preciso de ajuda.

 

Quando finalmente chego ao cais da estação deparo-me com a entrada limitada para a carruagem do metro, devido ao grande distância e desnível existentes entrUma pessoa em cadeira de rodas entra numa carruagem do metro, auxiliada por  pessoa que a empurra. e a plataforma e a carruagem. Todas estas situações anteriormente descritas me reduzem à dependência…

Para além de todas estas dificuldades que encontro ao deslocar-me nos transportes (e possivelmente não referi todas), existe ainda um grande obstáculo chamado ser humano, que faz questão de frequentemente me desrespeitar quer em palavras quer em atitudes, ao ocupar o lugar que me é reservado (no caso da carris) e a dar encontrões na cadeira, e, se chamo a atenção, dizem-me que “quero o autocarro todo para mim” e começam a ofender-me…

Outra barreira constrangedora é o acesso aos espaços físicos. Quantas vezes não posso aceder às lojas, serviços, casas, etc., porque têm degraus à entrada e no seu interior; porque até têm elevadores mas nestes não cabe a minha cadeira de rodas; porque têm o espaço demasiado estreito… enfim, muitos e variados são os impedimentos para quem tem mobilidade reduzida. E por isso, tal como referi no título deste artigo, viver em Lisboa é uma aventura, por vezes bem amarga.Carla Oliveira a tomar um copo com uma amiga.

Apesar de todos estes contratempos considero-me uma pessoa sortuda porque saio bastante de casa e tento fazer a minha vida o mais normal possível. Infelizmente existem muitas outras pessoas que nem de casa podem sair…

Para mim estas barreiras só servem para me tornarem mais forte e me darem mais coragem para seguir em frente, por isso, deixo-vos aqui o testemunho do meu dia-a-dia em Lisboa juntamente com um conselho: NUNCA DESISTAM DE LEVAR AS VOSSAS VIDAS PARA A FRENTE, por mais obstáculos que vos apareçam no caminho. EU NUNCA DESISTO!

Carla Oliveira

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