Porto, uma cidade inclusiva

15 Out

Testemunho de Hugo Vilela

Foto de Hugo Vilela sentado na sua cadeira de rodas eléctrica.

Texto escrito por Hugo Vilela & 
editado por Lisboa (In)Acessivel


A minha visão sobre as acessibilidades no Porto foi modificando de acordo com três fases distintas de mobilidade e autonomia na minha vida, que irei nomear e descrever em seguida:

1) Quando era totalmente autónomo na locomoção. 

2) Quando me deslocava com a ajuda de uma canadiana.

3) Quando senti a necessidade de me deslocar definitivamente numa cadeira de rodas eléctrica. 

1) Primeira Fase

Nesta fase a minha mobilidade e autonomia eram totais. Assim, vi e senti verdadeiramente o encanto e a mística do Porto nas diferentes actividades a que me fui dedicando, como a ida às compras com a minha mãe na Rua de Santa Catarina, ou,mais tarde, quando saia à noite e frequentava os bares da Ribeira com os meus amigos, ou participava nos jantares, serenatas da minha tuna e nas suas actuações no Coliseu do Porto; ou quando ia aos jogos do FCP ou passeava na Foz e no centro da cidade; e também quando tinha de tratar dos meus assuntos pessoais. 

Nesta altura, o Porto era uma cidade totalmente acessível e inclusiva para mim e quase tudo me era garantido de forma autónoma. Bastava eu decidir o que/onde pretendia, e não havia hesitações.

Passado algum tempo, e ainda nesta fase, comecei a sentir algumas dificuldades ao nível da minha mobilidade, e determinadas deslocações já se constituíam como um verdadeiro desafio para mim. Nomeadamente, se tivesse que subir passeios sem rampas (como na Ribeira do Porto dessa altura); subir ruas muito inclinadas (como por exemplo a Rua 31 de Janeiro); entrar num edifício com escadas (como a Torre dos Clérigos); ou, deslocar-me em pisos com paralelos (como por exemplo quando ia às atuações nas Caves do vinho do Porto, em Gaia)… mas…. ia na mesma, porque com mais ou menos dificuldade conseguia superar os obstáculos. Nos locais onde existiam escadas, eu já pedia por um elevador e, antes de me deslocar a determinado sítio,  gostava de saber antecipadamente se tinha ou não elevador. Se o espaço tivesse elevador eu ficava tranquilo, porque o acesso me era garantido sem grandes preocupações.

2) Segunda Fase

Quando comecei a deslocar-me com a ajuda de uma canadiana, tentei encontrar na cidade o mesmo padrão de acessibilidade e inclusão da fase anterior. Mas senti algumas diferenças….A cidade era a mesma… mas os meus desafios de mobilidade e acessibilidade é que já eram maiores e a perspectiva que passei a ter da cidade do Porto, como uma cidade inclusiva, mudou ligeiramente.

Nesta fase comecei a hesitar antes de decidir ir a algum lado. Apesar de ainda conduzir e já ter o dístico de estacionamento para pessoas com mobilidade reduzida, só me decidia a ir se tivesse a certeza que os acessos me eram garantidos. Por exemplo, só ia aos jantares com os meus amigos, se tivesse a certeza que não ia percorrer grandes distâncias, se houvesse estacionamento, se a entrada não tivesse degraus e, no caso de ser necessário subir escadas para aceder à sala de refeições, haver um elevador, ou então se os meus amigos se disponibilizassem a ajudar-me a subir as escadas. Esta última hipótese não era para mim a mais favorável uma vez que sempre quis realizar tudo autonomamente, mantendo o mesmo padrão de cidade inclusiva da primeira fase. Também ia apenas à zona de restauração da Ribeira,  se encontrasse um estacionamento no recinto junto ao restaurante, no caso de ir com alguém, me deixassem no local.

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Assim, não tenho muitas histórias para contar desta fase, uma vez que moro em Gaia e devido à sua proximidade com o Porto, preferia ir com os meus amigos sistematicamente aos mesmos locais, ou seja, aos cafés em Lavadores, onde encontrávamos estacionamento perto, evitando assim maiores preocupações com as acessibilidades, não usufruindo em pleno a que o Porto tem para oferecer.

3) Terceira Fase

A terceira e última fase corresponde à actualidade, em que me desloco em cadeira de rodas elétrica. Desde que comecei a andar com esta cadeira, a minha mobilidade melhorou consideravelmente. Consigo percorrer grandes distâncias nas ruas de Gaia e do Porto sem esforço. Os transportes públicos (metro, comboio e autocarros) conseguem alavancar o meu raio de deslocações com a cadeira, dentro e fora da cidade do Porto. No entanto, fui-me deparando com outros desafios de acessibilidade encontrados que se resumem basicamente…à falta de escolha e ao facto de quase todos os dias precisar de pensar antes de decidir.

No entanto, o Porto tem evoluído bastante nos últimos anos no que diz respeito às acessibilidades na via pública, principalmente no centro da cidade. Assim, a minha experiência de mobilidade no centro da cidade tem sido bastante positiva, e se me pedissem para avaliar o grau de acessibilidade na via pública, diria que esta é acessível, apesar das dificuldades sentidas em algumas situações. Já os utilizadores de cadeiras de rodas manuais podem ter mais razões de queixa, devido à inclinação acentuada de algumas ruas e dos lancis dos passeios junto às passadeiras, bem como de alguns obstáculos encontrados durante o percurso. Quanto aos transportes, a minha opinião também favorável. O Metro do Porto é excelente. Relativamente aos autocarros da STCP também tenho uma opinião favorável, apesar de em todas as suas linhas possuírem rampas, e circunstancial avarias das existentes. Quanto aos comboios urbanos da CP, também não tenho razões de queixa, excepto em relação à altura da plataforma em determinadas estações.

Em relação ao acesso aos edifícios, todos os dias tenho de pensar e planear com antecedência os locais onde posso ir. Por exemplo, em que restaurante poderei ir jantar com os meus amigos no qual apenas vou se tiver entrada acessível. No caso de ser num prédio com vários andares o elevador é importante ou se quiser ir ao cinema, o centro comercial tem de ter uma casa de banho acessível com as devidas condições. Sei que existem edifícios acessíveis para mim, esses são para mim uma referência e por isso sou cliente assíduo desses estabelecimentos.

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Conclusão

A cidade do Porto e as experiências que tem para oferece são inesquecíveis, pois, tal como o seu vinho, com o passar do tempo “fica cada vez melhor”! O seu grau de inclusão é que vai mudando em função do número de pessoas que sentem necessidade procurar locais acessíveis

É assim importante reconhecer e distinguir as práticas portuenses que melhor promovem a igualdade de oportunidades de escolha a todos os cidadãos e turistas.

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Uma resposta to “Porto, uma cidade inclusiva”

  1. Helena Almeida 5 OutubroUTC000 às 140530 #

    Excelente testemunho. Não moro no Porto mas a forma como descreve e analisa a sua experiência é extrapolável para outras cidades. Obrigada por partilhar.

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