Acessibilidades em Lisboa. Opinião de Raquel Rodrigues.

1 Jul

Entrevista de Inês Maia, estudante de Sociologia, a Raquel Rodrigues, cidadã lisboeta com mobilidade reduzida que se desloca em cadeira de rodas.

Raquel Rodrigues tem 34 anos e é natural de Lisboa. Licenciada em Psicologia pela Universidade Lusófona, encontra-se a concluir o mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde e trabalha actualmente na Secretaria da Junta de Freguesia da Pontinha. Participa activamente na Associação Casa do Chapim, como Presidente do Conselho Fiscal.

Inês Maia (IM): Quais os percursos que compõem o seu dia-a-dia? Encontra obstáculos à acessibilidade nesses percursos?

Raquel Rodrigues (RR): Agora como estou a trabalhar na Junta de Freguesia da Pontinha e moro perto, vou na cadeira de rodas de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Quando vou para a fisioterapia ou para o yoga adaptado em Benfica vou de autocarro. A maioria dos autocarros tem uma rampa e eu consigo entrar normalmente. É fácil quando há a tal rampa [risos]. Muitos ainda não a têm e alguns já têm mas está avariada. Também ando muito de metro quando vou passear. O metro é sem dúvida muito mais rápido e hoje em dia já há elevadores em algumas estações. Para entrar mesmo para dentro do metro peço ajuda a alguém. Mas já aconteceu várias vezes chegar a uma estação, sair do metro para apanhar o elevador para a rua e o elevador estar avariado. Tenho que entrar novamente no metro e sair noutra estação.

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IM: Encontra outros obstáculos à acessibilidade em Lis­­­­boa? Que soluções propõe?

RR- Sem dúvida que a falta de civismo das pessoas é o principal obstáculo. Já não há muitas acessibilidades e o que há é imensas vezes tapado com carros. Na minha rua fizeram um único rebaixamento de passeio e esse rebaixamento está sempre bloqueado. Todos os dias ponho um papel no vidro do carro que diz “os passeios rebaixados são para pessoas com mobilidade reduzida. Respeitem!” Mas ninguém liga.

Também existem passeios que só têm o rebaixamento de um dos lados. Portanto não vale a pena. É mais fácil ir pela estrada, apesar de ser perigoso. Além disso, os passeios em calçada nas zonas de Lisboa antiga também são complicados, porque a cadeira treme bastante. Como solução, acho que o rebaixamento dos passeios era fundamental. Eu já andei sozinha na rua e não tinha ninguém por perto para me ajudar a subir um passeio. Nunca vou ter independência a circular se não tiver os passeios rebaixados e se não os respeitarem!

IM: Como são as acessibilidades no seu local de trabalho?

RR- A Junta de Freguesia está toda adaptada. Tem casa de banho adaptada, as portas são largas e tem rampas. Tudo. O único obstáculo era a secretária que não estava ao nível da minha cadeira, mas eu levei uma mesa que tinha em casa e fui adaptando às minhas necessidades.

IM: E na Universidade onde estudou?

RR- A Lusófona até tinha acessibilidades, mas não todas quanto deveria. No início havia bastantes barreiras arquitectónicas, mas devagarinho fomos tentando conciliar a mobilidade reduzida que eu tenho com os acessos na faculdade. No início não havia casas de banho adaptadas, depois construíram uma e hoje em dia já existem duas. Há pavilhões que têm salas em baixo e em cima e eu logo no início do ano pedia para a minha turma ficar nas salas de baixo. O problema era que a meio do semestre decidiam mudar de sala para o andar de cima, portanto quando chegava, tinha de voltar para trás, porque não tinha como ir para a sala. Era mesmo frustrante! Isso aconteceu até em exames. Eu ia preparada para aquele dia e diziam-me para voltar depois e fazer o exame no gabinete do professor. Não devia ser obrigada a estar isolada a fazer o exame, não é? Quer dizer, eu era igual para pagar as propinas, mas não era igual para ter os mesmos direitos e condições.

IM: Encontra limitações de acessibilidade ao nível dos serviços?

RR- Ainda há muitos balcões em locais como as Finanças por exemplo que são muito altos. Eu tenho o privilégio da minha cadeira levantar em altura, mas quem não tem… Nos supermercados grandes não há dificuldades, mas nos mais pequenos quase não dá para a cadeira circular. Outro problema é a falta de casas de banho adaptadas. Mesmo quando há, como no Colombo, são demasiado pequenas. A minha cadeira só entra numa, que é a do cinema. É raro encontrar uma casa de banho dita adaptada em que a cadeira possa circular lá dentro. Além disso, novamente, a falta de civismo das pessoas é um problema. Temos prioridade nas filas, é um direito, e as pessoas nem sempre aceitam isso. Às vezes não é fácil lidarmos com essas situações. As mentalidades têm de ser mudadas, enquanto isso não mudar, não andamos para a frente. O deficiente ainda tem o rótulo do coitadinho e o coitadinho é para estar em casa. É impensável eu ir para o Bairro Alto. Mas eu vou! Também trabalho muito ao nível da inclusão na Associação Casa do Chapim. Trabalhamos com pessoas com mobilidade reduzida, amigos e familiares. Damos formação nas escolas pelo país, para sensibilizar.

IM: E ao nível das práticas de lazer?

RR- Gosto de ir ao cinema e gosto muito de teatro. Nas salas há um espaço para a cadeira de rodas mas se eu vou com um grupo de amigos que não têm mobilidade reduzida, eu fico ali sozinha e o grupo de amigos vai para outra fila. Não ficamos ao pé das pessoas que vão connosco. É ridículo!

IM: ­­Então acha que é importante que quem tem mobilidade reduzida se pronuncie e envolva na luta pela melhoria e igualdade de acessos?

RR- Sim, sem dúvida. Há muitas pessoas com mobilidade reduzida que se isolam, mas se a mentalidade dessas pessoas também mudar, tudo pode ser diferente. Claro que se formos muitos a lutar pelo mesmo, acho que alguma coisa é obrigada a mudar.


Texto: Inês Maia | Fotos: Raquel Rodrigues | Edição: Lisboa (In)Acessível


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