A voz de um atleta perito em acessibilidade!

1 Dez

Hélder Mestre à espera da partida numa prova do Campeonato do Mundo de Atletismo IPC 2015 Doha (Qatar).

Hélder Mestre vive em Lisboa e trabalha na Divisão de Administração de Sistemas, Infra-Estruturas e Comunicações, do Departamento de Sistemas de Informação da Câmara Municipal de Lisboa. Pratica atletismo adaptado, e participou no Campeonato Mundial Paralímpico de Atletismo no Qatar, tendo também obtido os mínimos para competir nos Jogos Paralímpicos no Rio de Janeiro em 2016.

Quais os percursos que compõem o seu quotidiano?

Hélder Mestre (HM)  No dia-a-dia, de forma geral, é casa-trabalho, trabalho-casa. Tenho carro, mas por hábito não o levo. Acrescento uma handbike, que me permite empurrar a cadeira quase como se fosse uma bicicleta, e é esse meio de transporte que utilizo no dia-a-dia. Facilita-me muito a vida porque me permite vencer os obstáculos com maior facilidade. Quando utilizo apenas a cadeira, como o passeio é todo em calçada e as rodas da frente são pequeninas, a cadeira trepida por todos os lados, por isso, sempre que posso vou pela estrada. Nem quando chove mudo os meus percursos ou uso o carro.

Como foi o processo de inserção na Câmara? Encontrou barreiras por ter mobilidade reduzida?

HM- Sim, barreiras físicas. O edifício onde comecei a trabalhar tinha à entrada um degrau de cerca de 10 cm de altura, por isso tinha sempre de pedir ajuda ao segurança para entrar. O elevador que havia no edifício era muito pequenino e eu só conseguia entrar tirando os apoios dos pés da cadeira. Também não havia casas-de-banho adaptadas. Dois anos depois mudei-me para o edifício onde estou agora, que na altura também não tinha acessos. Já não sei quanto tempo estive nessas condições, mas a nosso pedido, meu e da chefia, fizeram uma série de rampas, e neste momento tenho os acessos que preciso. Só a casa-de-banho é que ainda não existe em condições para quem tem mobilidade reduzida, mas desenvolvi um método que me permite utilizá-la mesmo assim.

Encontra limitações de acessibilidade ao nível dos serviços?

HM- Há sítios onde vamos e contávamos ter acessos e depois não temos. É o caso dos bancos, por exemplo. Antigamente chateava-me com isso, mas passei a aceitar que me atendam noutro local do banco. Sei que fazer isto assim é discriminatório, e há muitas pessoas na minha situação que sofrem com isso, mas eu tento dar a volta. Sou atendido na mesma, consigo fazer o que quero, e cumpro o objectivo a que me propus. Outra dificuldade é no centro de saúde que utilizo, em Sete Rios, que tem uma rampa tão inclinada que a cadeira escorrega. Tiveram a preocupação de fazer uma rampa, mas não tiveram o cuidado de a fazer de acordo com as regras. Aquilo não serve para nada assim. Outro problema são as caixas Multibanco. Eu conheço algumas acessíveis, tanto na zona de casa, como do trabalho. Sei aquelas onde posso ir, mas as que encontro geralmente na rua são de acesso impossível. Algumas até estão a uma altura acessível, mas à frente têm um degrau, portanto não as conseguimos usar na mesma. De uma forma geral, os centros comerciais e os hipermercados são os sítios onde temos melhores acessos.

Como se precavê de percursos com barreiras?

HM- Se eu souber que um sítio tem barreiras tento evitar. Se não tiver alternativa, vou até lá, analiso e vejo o que posso fazer. Muitas vezes utilizo o Google Earth antes, e, no street view vejo como é o acesso do sítio para onde estou a pensar ir, e em função disso elimino problemas que iria ter se não o tivesse feito. Acho que acima de tudo não nos podemos é chatear muito com isso, porque na maior parte dos sítios há sempre outras pessoas por perto, e é só pedir a pessoal jovem e com força, que eles ajudam. Às vezes pensamos que estamos a incomodar, e não estamos. As pessoas têm prazer em ajudar.

Há sítios onde as soluções seriam fáceis de encontrar…

HM- Sim, sem dúvida. O melhor exemplo são os passeios rebaixados. A maior parte desses acessos tem pelo menos dois centímetros de altura. Não consigo perceber por que é que aquilo está feito assim. Esse é o típico exemplo de uma obra que custaria exactamente o mesmo se fosse bem feita, no entanto está mal feita.

Quais as actividades de lazer que privilegia?

HM- Eu sempre fiz atletismo, sempre gostei e hoje continuo a fazer. Adoro! Além do atletismo, experimentei muitas coisas. Eu sabia nadar [antes do acidente], e depois tive que reaprender. Fiz natação durante alguns anos e experimentei remo, canoagem, andebol… Vou ao cinema e a concertos, e dou muitos passeios por Lisboa. Lamento que a Ribeira das Naus, que foi feita há pouco tempo, seja um sítio tão dramático para nós. Bastava que fosse lisinha, e já podíamos andar lá bem. Assim não, é um perigo e em vez de se apreciar o sítio, estamos sempre a debater-nos para não nos espalharmos no chão.

Essas actividades de lazer são condicionadas pelo facto de andar de cadeira de rodas?

HM- Muito sinceramente acho que actualmente já não, porque existe muita oferta. Por exemplo, o cinema do Campo Pequeno é excelente para nós. Eu acho que o mais importante nisto é a nossa postura. Eu tento sempre ir à procura da solução, sou muito pragmático nisso. E acho que a pessoa vive melhor assim.

Costuma fazer férias fora da cidade? Se sim, onde?

HM- Costumo ficar em Lisboa ou ir para o Algarve com o meu irmão. Quando vou para lá é mais difícil e ele tem de me ajudar. Costumo ir para a praia da Galé, onde existe um tiralô. Quando chegamos os nadadores-salvadores dão-nos o tiralô, que fica a nosso cargo, e quando é preciso ir ao banho utilizo-o com a ajuda do meu irmão. Tenho este cuidado de ir para uma praia onde há um tiralô, onde não há muita gente, e que tem bons acessos.

Sente que a cidade de Lisboa está pensada para quem não tem limitações de mobilidade?

HM- Sim, é isso mesmo! Há adaptações para nós mas são muitas vezes enviesadas, mal feitas e não estruturadas. Têm surgido ciclovias, que são uma coisa muito boa para quem anda em cadeira. Eu sou um grande cliente das ciclovias [risos]. É como andar na estrada com a vantagem de não ter carros. Eu queria era que se espalhassem muitas pela cidade. Quantas mais fizerem, melhor será para nós, para andarmos à vontade.

De que forma o facto de andar de cadeira de rodas influencia a forma como se vê a si próprio? E como os outros o veem?

HM- Essa pergunta é muito interessante, já tenho pensado sobre isso. Os meus colegas já me têm dito uma coisa engraçada: esquecem-se que eu ando de cadeira de rodas. Acho que é bom sinal [risos]. Não posso falar por aqueles que já nasceram assim, mas o meu caso, que vim parar à cadeira depois de um acidente, faz pensar. Isto aconteceu-me a mim, que sempre gostei de actividades com esforço físico. De repente fiquei tetraplégico. Andar de cadeira de rodas condiciona-me em certas coisas, mas também me criou uma perspectiva diferente sobre a vida. Não sei se fez de mim melhor pessoa, ou pior [risos]… Mas sei que andar de cadeira de rodas não me define. Acho que o meu trajecto e a minha postura são positivas e que isso é o mais importante. A alternativa era desistir e isso não se coloca como hipótese para mim.


  • Entrevista: Inês Maia
  • Imagem: Ricardo Mestre
  • Edição: Lisboa (In)Acessível

 

 

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