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A voz de um atleta perito em acessibilidade!

1 Dez

Hélder Mestre à espera da partida numa prova do Campeonato do Mundo de Atletismo IPC 2015 Doha (Qatar).

Hélder Mestre vive em Lisboa e trabalha na Divisão de Administração de Sistemas, Infra-Estruturas e Comunicações, do Departamento de Sistemas de Informação da Câmara Municipal de Lisboa. Pratica atletismo adaptado, e participou no Campeonato Mundial Paralímpico de Atletismo no Qatar, tendo também obtido os mínimos para competir nos Jogos Paralímpicos no Rio de Janeiro em 2016.

Quais os percursos que compõem o seu quotidiano?

Hélder Mestre (HM)  No dia-a-dia, de forma geral, é casa-trabalho, trabalho-casa. Tenho carro, mas por hábito não o levo. Acrescento uma handbike, que me permite empurrar a cadeira quase como se fosse uma bicicleta, e é esse meio de transporte que utilizo no dia-a-dia. Facilita-me muito a vida porque me permite vencer os obstáculos com maior facilidade. Quando utilizo apenas a cadeira, como o passeio é todo em calçada e as rodas da frente são pequeninas, a cadeira trepida por todos os lados, por isso, sempre que posso vou pela estrada. Nem quando chove mudo os meus percursos ou uso o carro.

Como foi o processo de inserção na Câmara? Encontrou barreiras por ter mobilidade reduzida?

HM- Sim, barreiras físicas. O edifício onde comecei a trabalhar tinha à entrada um degrau de cerca de 10 cm de altura, por isso tinha sempre de pedir ajuda ao segurança para entrar. O elevador que havia no edifício era muito pequenino e eu só conseguia entrar tirando os apoios dos pés da cadeira. Também não havia casas-de-banho adaptadas. Dois anos depois mudei-me para o edifício onde estou agora, que na altura também não tinha acessos. Já não sei quanto tempo estive nessas condições, mas a nosso pedido, meu e da chefia, fizeram uma série de rampas, e neste momento tenho os acessos que preciso. Só a casa-de-banho é que ainda não existe em condições para quem tem mobilidade reduzida, mas desenvolvi um método que me permite utilizá-la mesmo assim.

Encontra limitações de acessibilidade ao nível dos serviços?

HM- Há sítios onde vamos e contávamos ter acessos e depois não temos. É o caso dos bancos, por exemplo. Antigamente chateava-me com isso, mas passei a aceitar que me atendam noutro local do banco. Sei que fazer isto assim é discriminatório, e há muitas pessoas na minha situação que sofrem com isso, mas eu tento dar a volta. Sou atendido na mesma, consigo fazer o que quero, e cumpro o objectivo a que me propus. Outra dificuldade é no centro de saúde que utilizo, em Sete Rios, que tem uma rampa tão inclinada que a cadeira escorrega. Tiveram a preocupação de fazer uma rampa, mas não tiveram o cuidado de a fazer de acordo com as regras. Aquilo não serve para nada assim. Outro problema são as caixas Multibanco. Eu conheço algumas acessíveis, tanto na zona de casa, como do trabalho. Sei aquelas onde posso ir, mas as que encontro geralmente na rua são de acesso impossível. Algumas até estão a uma altura acessível, mas à frente têm um degrau, portanto não as conseguimos usar na mesma. De uma forma geral, os centros comerciais e os hipermercados são os sítios onde temos melhores acessos.

Como se precavê de percursos com barreiras?

HM- Se eu souber que um sítio tem barreiras tento evitar. Se não tiver alternativa, vou até lá, analiso e vejo o que posso fazer. Muitas vezes utilizo o Google Earth antes, e, no street view vejo como é o acesso do sítio para onde estou a pensar ir, e em função disso elimino problemas que iria ter se não o tivesse feito. Acho que acima de tudo não nos podemos é chatear muito com isso, porque na maior parte dos sítios há sempre outras pessoas por perto, e é só pedir a pessoal jovem e com força, que eles ajudam. Às vezes pensamos que estamos a incomodar, e não estamos. As pessoas têm prazer em ajudar.

Há sítios onde as soluções seriam fáceis de encontrar…

HM- Sim, sem dúvida. O melhor exemplo são os passeios rebaixados. A maior parte desses acessos tem pelo menos dois centímetros de altura. Não consigo perceber por que é que aquilo está feito assim. Esse é o típico exemplo de uma obra que custaria exactamente o mesmo se fosse bem feita, no entanto está mal feita.

Quais as actividades de lazer que privilegia?

HM- Eu sempre fiz atletismo, sempre gostei e hoje continuo a fazer. Adoro! Além do atletismo, experimentei muitas coisas. Eu sabia nadar [antes do acidente], e depois tive que reaprender. Fiz natação durante alguns anos e experimentei remo, canoagem, andebol… Vou ao cinema e a concertos, e dou muitos passeios por Lisboa. Lamento que a Ribeira das Naus, que foi feita há pouco tempo, seja um sítio tão dramático para nós. Bastava que fosse lisinha, e já podíamos andar lá bem. Assim não, é um perigo e em vez de se apreciar o sítio, estamos sempre a debater-nos para não nos espalharmos no chão.

Essas actividades de lazer são condicionadas pelo facto de andar de cadeira de rodas?

HM- Muito sinceramente acho que actualmente já não, porque existe muita oferta. Por exemplo, o cinema do Campo Pequeno é excelente para nós. Eu acho que o mais importante nisto é a nossa postura. Eu tento sempre ir à procura da solução, sou muito pragmático nisso. E acho que a pessoa vive melhor assim.

Costuma fazer férias fora da cidade? Se sim, onde?

HM- Costumo ficar em Lisboa ou ir para o Algarve com o meu irmão. Quando vou para lá é mais difícil e ele tem de me ajudar. Costumo ir para a praia da Galé, onde existe um tiralô. Quando chegamos os nadadores-salvadores dão-nos o tiralô, que fica a nosso cargo, e quando é preciso ir ao banho utilizo-o com a ajuda do meu irmão. Tenho este cuidado de ir para uma praia onde há um tiralô, onde não há muita gente, e que tem bons acessos.

Sente que a cidade de Lisboa está pensada para quem não tem limitações de mobilidade?

HM- Sim, é isso mesmo! Há adaptações para nós mas são muitas vezes enviesadas, mal feitas e não estruturadas. Têm surgido ciclovias, que são uma coisa muito boa para quem anda em cadeira. Eu sou um grande cliente das ciclovias [risos]. É como andar na estrada com a vantagem de não ter carros. Eu queria era que se espalhassem muitas pela cidade. Quantas mais fizerem, melhor será para nós, para andarmos à vontade.

De que forma o facto de andar de cadeira de rodas influencia a forma como se vê a si próprio? E como os outros o veem?

HM- Essa pergunta é muito interessante, já tenho pensado sobre isso. Os meus colegas já me têm dito uma coisa engraçada: esquecem-se que eu ando de cadeira de rodas. Acho que é bom sinal [risos]. Não posso falar por aqueles que já nasceram assim, mas o meu caso, que vim parar à cadeira depois de um acidente, faz pensar. Isto aconteceu-me a mim, que sempre gostei de actividades com esforço físico. De repente fiquei tetraplégico. Andar de cadeira de rodas condiciona-me em certas coisas, mas também me criou uma perspectiva diferente sobre a vida. Não sei se fez de mim melhor pessoa, ou pior [risos]… Mas sei que andar de cadeira de rodas não me define. Acho que o meu trajecto e a minha postura são positivas e que isso é o mais importante. A alternativa era desistir e isso não se coloca como hipótese para mim.


  • Entrevista: Inês Maia
  • Imagem: Ricardo Mestre
  • Edição: Lisboa (In)Acessível

 

 

Carrinhos de bebé em Lisboa – Testemunho de uma mãe –

11 Nov

Imagem estilizada a preto de mãe a empurrar um carrinho de bebé e a transportar outro bebé às costas.

Texto: Ana Naiker | Edição: Lisboa (In)Acessível

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A Ana tem 35 anos e nasceu em Lisboa, onde viveu até Junho de 2015. Actualmente vive em Guilford, e estuda no Guilford Collegue. Tem dois filhos rapazes, um de dois anos e outro de um.

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«Como mãe andar com os carrinhos de bebés pelas ruas de Lisboa sempre foi uma aventura!

As ruas não estão minimamente preparadas para esse efeito, sempre sofri imenso porque os passeios são muito altos e nem sequer existe uma parte mais baixa para subir nem descer.

Várias vezes me questionei se seria a única pessoa com essa dificuldade, mas na altura falei com muitos amigos que também já tinham tido algumas experiências menos boas.

Já não basta o facto de termos um bebé que queremos proteger de todos os perigos, e ainda temos que estar sujeitos aos tombos, por causa das ruas que estão cheias de buracos ou das ruas que não estão acabadas e daquelas em que nem existe espaço para passar com o carrinho – porque os carros utilizam todos os espaços possíveis e imaginários.

Ninguém pensa nas pessoas que diariamente usam as ruas e quais as suas dificuldades. É triste, mas sempre encontrei dificuldades nos passeios e houve mesmo ocasiões em que tive de pedir ajuda a estranhos.

Enfim, a minha experiência não é a melhor, mas o pior é que nada mudou desde que tive o meu segundo filho, e continuo com os mesmo problemas com o carrinho, no entanto, já adoptei técnicas que me ajudam a ultrapassar os obstáculos mais facilmente.»

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Acessibilidades em Lisboa. Opinião de Raquel Rodrigues.

1 Jul

Entrevista de Inês Maia, estudante de Sociologia, a Raquel Rodrigues, cidadã lisboeta com mobilidade reduzida que se desloca em cadeira de rodas.

Raquel Rodrigues tem 34 anos e é natural de Lisboa. Licenciada em Psicologia pela Universidade Lusófona, encontra-se a concluir o mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde e trabalha actualmente na Secretaria da Junta de Freguesia da Pontinha. Participa activamente na Associação Casa do Chapim, como Presidente do Conselho Fiscal.

Inês Maia (IM): Quais os percursos que compõem o seu dia-a-dia? Encontra obstáculos à acessibilidade nesses percursos?

Raquel Rodrigues (RR): Agora como estou a trabalhar na Junta de Freguesia da Pontinha e moro perto, vou na cadeira de rodas de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Quando vou para a fisioterapia ou para o yoga adaptado em Benfica vou de autocarro. A maioria dos autocarros tem uma rampa e eu consigo entrar normalmente. É fácil quando há a tal rampa [risos]. Muitos ainda não a têm e alguns já têm mas está avariada. Também ando muito de metro quando vou passear. O metro é sem dúvida muito mais rápido e hoje em dia já há elevadores em algumas estações. Para entrar mesmo para dentro do metro peço ajuda a alguém. Mas já aconteceu várias vezes chegar a uma estação, sair do metro para apanhar o elevador para a rua e o elevador estar avariado. Tenho que entrar novamente no metro e sair noutra estação.

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IM: Encontra outros obstáculos à acessibilidade em Lis­­­­boa? Que soluções propõe?

RR- Sem dúvida que a falta de civismo das pessoas é o principal obstáculo. Já não há muitas acessibilidades e o que há é imensas vezes tapado com carros. Na minha rua fizeram um único rebaixamento de passeio e esse rebaixamento está sempre bloqueado. Todos os dias ponho um papel no vidro do carro que diz “os passeios rebaixados são para pessoas com mobilidade reduzida. Respeitem!” Mas ninguém liga.

Também existem passeios que só têm o rebaixamento de um dos lados. Portanto não vale a pena. É mais fácil ir pela estrada, apesar de ser perigoso. Além disso, os passeios em calçada nas zonas de Lisboa antiga também são complicados, porque a cadeira treme bastante. Como solução, acho que o rebaixamento dos passeios era fundamental. Eu já andei sozinha na rua e não tinha ninguém por perto para me ajudar a subir um passeio. Nunca vou ter independência a circular se não tiver os passeios rebaixados e se não os respeitarem!

IM: Como são as acessibilidades no seu local de trabalho?

RR- A Junta de Freguesia está toda adaptada. Tem casa de banho adaptada, as portas são largas e tem rampas. Tudo. O único obstáculo era a secretária que não estava ao nível da minha cadeira, mas eu levei uma mesa que tinha em casa e fui adaptando às minhas necessidades.

IM: E na Universidade onde estudou?

RR- A Lusófona até tinha acessibilidades, mas não todas quanto deveria. No início havia bastantes barreiras arquitectónicas, mas devagarinho fomos tentando conciliar a mobilidade reduzida que eu tenho com os acessos na faculdade. No início não havia casas de banho adaptadas, depois construíram uma e hoje em dia já existem duas. Há pavilhões que têm salas em baixo e em cima e eu logo no início do ano pedia para a minha turma ficar nas salas de baixo. O problema era que a meio do semestre decidiam mudar de sala para o andar de cima, portanto quando chegava, tinha de voltar para trás, porque não tinha como ir para a sala. Era mesmo frustrante! Isso aconteceu até em exames. Eu ia preparada para aquele dia e diziam-me para voltar depois e fazer o exame no gabinete do professor. Não devia ser obrigada a estar isolada a fazer o exame, não é? Quer dizer, eu era igual para pagar as propinas, mas não era igual para ter os mesmos direitos e condições.

IM: Encontra limitações de acessibilidade ao nível dos serviços?

RR- Ainda há muitos balcões em locais como as Finanças por exemplo que são muito altos. Eu tenho o privilégio da minha cadeira levantar em altura, mas quem não tem… Nos supermercados grandes não há dificuldades, mas nos mais pequenos quase não dá para a cadeira circular. Outro problema é a falta de casas de banho adaptadas. Mesmo quando há, como no Colombo, são demasiado pequenas. A minha cadeira só entra numa, que é a do cinema. É raro encontrar uma casa de banho dita adaptada em que a cadeira possa circular lá dentro. Além disso, novamente, a falta de civismo das pessoas é um problema. Temos prioridade nas filas, é um direito, e as pessoas nem sempre aceitam isso. Às vezes não é fácil lidarmos com essas situações. As mentalidades têm de ser mudadas, enquanto isso não mudar, não andamos para a frente. O deficiente ainda tem o rótulo do coitadinho e o coitadinho é para estar em casa. É impensável eu ir para o Bairro Alto. Mas eu vou! Também trabalho muito ao nível da inclusão na Associação Casa do Chapim. Trabalhamos com pessoas com mobilidade reduzida, amigos e familiares. Damos formação nas escolas pelo país, para sensibilizar.

IM: E ao nível das práticas de lazer?

RR- Gosto de ir ao cinema e gosto muito de teatro. Nas salas há um espaço para a cadeira de rodas mas se eu vou com um grupo de amigos que não têm mobilidade reduzida, eu fico ali sozinha e o grupo de amigos vai para outra fila. Não ficamos ao pé das pessoas que vão connosco. É ridículo!

IM: ­­Então acha que é importante que quem tem mobilidade reduzida se pronuncie e envolva na luta pela melhoria e igualdade de acessos?

RR- Sim, sem dúvida. Há muitas pessoas com mobilidade reduzida que se isolam, mas se a mentalidade dessas pessoas também mudar, tudo pode ser diferente. Claro que se formos muitos a lutar pelo mesmo, acho que alguma coisa é obrigada a mudar.


Texto: Inês Maia | Fotos: Raquel Rodrigues | Edição: Lisboa (In)Acessível


Pensar as acessibilidades é tarefa de todos

10 Jun

Texto e Foto: Inês Maia | Edição: Lisboa (In)Acessível

Inês Maia, autora do texto e foto.

Inês Maia, autora do texto e foto.

Chamo-me Inês Maia, tenho 22 anos e encontro-me a concluir a licenciatura em Sociologia no ISCTE-IUL, em Lisboa. No âmbito da disciplina de Sociologia da Vida Quotidiana, aquando do debate sobre os temas dos trabalhos a desenvolver, o Professor incentivou-nos a alargar horizontes em termos de objectos de estudo, a pensar o que até aí não tínhamos pensado e a transformar em enigmas de investigação o que nos despertava curiosidade. Estava lançado o repto. Com a curiosidade sociológica aguçada aliada ao confronto com as dificuldades de circulação de uma pessoa próxima, que se encontrava na altura a necessitar de muletas para se deslocar, despertei para a temática e surgiu a primeira interrogação: como será circular quotidianamente com mobilidade reduzida  numa cidade como Lisboa?

Aquilo sobre o qual até aí nunca tinha pensado, impôs-se de rompante como uma evidência: os percursos que compõem os meus dias seriam em alguns casos impossíveis de concretizar se circulasse por exemplo numa cadeira de rodas. A partir daí cresceu o caudal de questões que veio a estar na base do trabalho e com ele surgiu o meu despertar para a justeza desta questão: As necessidades de quem tem mobilidade reduzida não andarão esquecidas por quem pensa e planeia a cidade? Como pode Lisboa ser verdadeiramente democrática no que ao usufruto do espaço público diz respeito, se quem circula com limitações na sua mobilidade se depara com tantos obstáculos? Que experiência quotidiana é esta de circular com mobilidade reduzida, por Lisboa? Afinal, como pode esta cidade ser de facto para todos?

Não tenho mobilidade reduzida e, até ter desenvolvido este trabalho, não conhecia ninguém que tivesse. Apesar de ser estudante de sociologia, de estar desperta para um conjunto de problemas sociais e de ter uma participação política activa, sou obrigada a admitir que nunca tinha pensado sobre a questão das acessibilidades. Degraus em praticamente todo o lado, elevadores avariados em estações de metro ou autocarros sem rampas, caixas multibanco demasiado altas, passeios com 2cm de altura ou restaurantes com casas de banho minúsculas não representam de facto obstáculos para mim. Contudo, representam para muitas pessoas que vivem, estudam e trabalham em Lisboa. Aquilo sobre o qual nem parava para pensar são afinal barreiras para quem circula com mobilidade reduzida. Aquilo sobre o qual nem parava para pensar são mecanismos que em muitos casos discriminam e excluem quem tem todo o direito ao usufruto da cidade. E se me apercebi que assim é, então pensar as acessibilidades passou também a ser tarefa minha. É necessário, e urgente, que todos despertemos e nos sensibilizemos perante esta questão. Todos. Com e sem mobilidade reduzida. Porque participar nesta batalha é defender a igualdade e o respeito pelo outro; é exigir dignidade, independência e autonomia para a vida de quem tem mobilidade reduzida; é construir Lisboa como uma cidade verdadeiramente para todos.

Olhar de Norberto Sousa sobre as acessibilidades em Lisboa

1 Out

Foto perfil de Norberto Sousa, a sorrir.

Norberto Sousa aceitou o nosso desafio de responder de forma pertinente a questões relativas às condições de acessibilidade em Lisboa.

Perfil de Norberto Sousa (NS)

Norberto Sousa é licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, inglês-alemão, formador e consultor de acessibilidade web e digital, a instituições como o Museu da Batalha e o Banco de Portugal. Tem um vasto Know-how nas áreas da informática e das tecnologias de apoio, diretrizes de acessibilidade WEB, plataformas de aprendizagem e ambientes virtuais, jogos e software acessível para pessoas com deficiência visual. Colabora no portal Lerparaver, no projeto Dosvox, e, é um dos fundadores do ComAcesso**. É membro do centro de investigação iACT do IPLeiria e colabora com o mesmo na análise de plataformas e conteúdos para o e-Learning; é um dos autores do artigo “Accessible e-learning – practices and research in the Polytechnic Institute of Leiria” apresentado no W3C, e, do “Guia de Produção de Materiais Digitais Acessíveis”, entre outros artigos científicos. Colaborou em vários projetos nacionais e europeus, nomeadamente o EU4ALL. Foi contemplado com o primeiro prémio internacional Onkyo Braille Essay Contest promovido pela EBU, entre outros prémios literários.

De uma forma geral como considera que são as condições de acessibilidade oferecidas pela capital?

NS – Muito más. Excluindo alguns locais, onde são respeitadas algumas normas de acessibilidade, continuamos a encontrar passeios totalmente ocupados por automóveis e por objetos que dificultam a mobilidade de todos; continuamos a construir edifícios/espaços públicos, comerciais e privados sem pensarmos na acessibilidade. Resumindo, continua a haver falta de organização urbana, de fiscalização, de civismo e de sensibilidade.

Quer fazer algum paralelismo em relação ao tipo de condições encontradas na Madeira, sua localidade de origem?

NS – Nas zonas urbanas da Madeira notei uma grande melhoria na acessibilidade dos espaços públicos. Talvez por haver maior proximidade dos autarcas da população e consequentemente uma maior abertura para ouvir as sugestões das pessoas têm sido eliminados alguns pontos com problemas de acessibilidade.

Como residente na Grande Lisboa, quais são as dificuldades pessoais que encontra no seu dia-a-dia, como consequência, directa ou indirecta, das barreiras existentes relativamente à acessibilidade (espaços/serviços/atitudes)? Pode descrever estas dificuldades e barreiras?

NS – As maiores dificuldades são pilaretes colocados indevidamente no meio dos passeios e de passadeiras; automóveis, bocas de incêndio e sinalização, obras não sinalizadas que dificultam ou impedem a passagem nos passeios e por vezes dão mesmo origem a pequenos acidentes; semáforos sem sinal sonoro e muitos outros objetos, como caixotes do lixo, que são colocados em qualquer sítio. Há ainda os buracos provocados pelo estacionamento indevido dos automóveis, caixas de eletricidade, esplanadas sem delimitação e outros objetos com publicidade de espaços comerciais. Sair à rua em Lisboa é uma verdadeira aventura, uma gincana com barreiras novas a cada minuto!

Estas dificuldades condicionam a sua vida diária? Como? Deixa de ir a determinado local, recorrer certos serviços, realizar tarefas ou exercer os seus deveres e direitos de cidadania porque por causa de entraves à acessibilidade (por exemplo, participar nos actos eleitorais)?

NS – Sendo cego, as barreiras que apontei não me impedem de fazer as minhas tarefas diárias, mas limitam a sua realização em plena normalidade e provocam grande instabilidade emocional pois é sempre uma incógnita quando vou magoar-me, sujar-me ou perder-me no trajeto porque tive de fazer algum desvio por causa de uma barreira nova.

Na sua opinião, quais seriam as prioridades a adoptar na cidade de Lisboa ao nível das acessibilidades, nomeadamente em relação às condições oferecidas aos cidadãos cegos ou com baixa visão?

NS – Fiscalizar para eliminar espaços comerciais que eram estacionamento de edifícios e que tiveram como consequência a ocupação dos passeios por automóveis; reorganizar os passeios criando-se espaço exclusivo para passeio e, onde isso fosse possível, espaço para estacionamento; legislar para que a calçada portuguesa fosse utilizada apenas em zonas históricas ou no máximo em redor de edifícios públicos importantes, dado que este tipo de pavimento provoca grande reflexo de luz, provoca acidentes por ser muito escorregadio e por ser muito instável, quer devido à sua irregularidade, quer devido aos buracos que surgem com frequência. Reorganizar o mobiliário urbano e criar condutas de recolha de lixo com pontos fixos para que os passeios sejam sinónimo de verdadeira mobilidade livre e segura.

Assume algum papel interventivo na melhora das condições de acessibilidade em geral, e em particular na cidade de Lisboa?Se sim, qual?

NS – Na área da acessibilidade física, como cidadão ativo, tento informar as autarquias ou outras entidades competentes quando encontro alguma barreira de acessibilidade ou barreiras perigosas. Infelizmente a falta de sensibilidade e de abertura de alguns responsáveis e falta de fiscalização das entidades competentes faz com que os problemas de acessibilidade não sejam resolvidos por mais simples que sejam. E, assim, a inacessibilidade e a falta de civismo em Portugal continua.Na área da acessibilidade digital, sou consultor de acessibilidade Web e digital e tento sensibilizar e incentivar as instituições, empresas e particulares a desenvolverem Sites e produtos digitais acessíveis ao maior número de pessoas.

**www.comacesso.pt

Viver em Lisboa é uma aventura!

17 Set

Testemunho de vida

Texto escrito por Carla Oliveira & 
Editado por Lisboa (In)Acessível

Carla Oliveira sentada na sua cadeira de rodas, num jardim,  de frente para a foto.

O meu nome é Carla Oliveira e tenho 38 anos.

Estou a terminar uma Licenciatura em Contabilidade e Administração e ao mesmo tempo estou a trabalhar num call center em part-time para conseguir suportar as despesas.

Ando de cadeira de rodas eléctrica porque nasci com Osteogénese Imperfeita (mais conhecida por Doença dos Ossos de Vidro).

Viver em Lisboa não é propriamente um mar de rosas nem tão fácil como possa parecer.

Digo isto porque vivo diariamente na pele o que é precisar de ir a qualquer lado e ter de sistematicamente planear e escolher qual o caminho ou o transporte que preciso tomar para conseguir chegar ao meu destino, algo  com que as pessoas ditas “normais” não têm de se preocupar.

Se for “a pé” (cadeira de rodas) tenho de conhecer primeiramente o caminho para saber se posso ir por ai; se posso ir pelo passeio e se este tem condições para mim (se é rebaixado, se não tem buracos ou pedras soltas, se não é inclinado, se não tem obstáculos), ou se sou obrigada a ir pela estrada sujeita às velocidades dos carros e ter um acidente, ou, às palavras, atitudes e comportamentos menos próprios dos condutores.

Se for de transportes públicos estou sempre condicionada porque nem todos são acessíveis. Os auAutocarro da carris com a rampa de acesso aberta para o exterior.tocarros da Carris, mesmo os acessíveis,  colocam-me em permanente sobressalto devido às avarias constantes das suas rampas, que me fazem perder tempo e chegar atrasada. Se quero viajar de metro estou limitada às estações que têm elevadores – que infelizmente são ainda muito poucas – constantemente avariados devido ao uso abusivo por parte de quem deles não necessita, e sou obrigada a ter que pedir ajuda aos operadores, o que não me permite ser independente. Além disso, para falar com os operadores tenho que  carregar num botão localizado a uma altura consideravelmente alta para quem está sentado numa cadeira de rodas, e que está frequentemente avariado – o que me impede de usufruir desse apoio, e em certas estações, os operadores não estão do lado onde preciso de ajuda.

 

Quando finalmente chego ao cais da estação deparo-me com a entrada limitada para a carruagem do metro, devido ao grande distância e desnível existentes entrUma pessoa em cadeira de rodas entra numa carruagem do metro, auxiliada por  pessoa que a empurra. e a plataforma e a carruagem. Todas estas situações anteriormente descritas me reduzem à dependência…

Para além de todas estas dificuldades que encontro ao deslocar-me nos transportes (e possivelmente não referi todas), existe ainda um grande obstáculo chamado ser humano, que faz questão de frequentemente me desrespeitar quer em palavras quer em atitudes, ao ocupar o lugar que me é reservado (no caso da carris) e a dar encontrões na cadeira, e, se chamo a atenção, dizem-me que “quero o autocarro todo para mim” e começam a ofender-me…

Outra barreira constrangedora é o acesso aos espaços físicos. Quantas vezes não posso aceder às lojas, serviços, casas, etc., porque têm degraus à entrada e no seu interior; porque até têm elevadores mas nestes não cabe a minha cadeira de rodas; porque têm o espaço demasiado estreito… enfim, muitos e variados são os impedimentos para quem tem mobilidade reduzida. E por isso, tal como referi no título deste artigo, viver em Lisboa é uma aventura, por vezes bem amarga.Carla Oliveira a tomar um copo com uma amiga.

Apesar de todos estes contratempos considero-me uma pessoa sortuda porque saio bastante de casa e tento fazer a minha vida o mais normal possível. Infelizmente existem muitas outras pessoas que nem de casa podem sair…

Para mim estas barreiras só servem para me tornarem mais forte e me darem mais coragem para seguir em frente, por isso, deixo-vos aqui o testemunho do meu dia-a-dia em Lisboa juntamente com um conselho: NUNCA DESISTAM DE LEVAR AS VOSSAS VIDAS PARA A FRENTE, por mais obstáculos que vos apareçam no caminho. EU NUNCA DESISTO!

Carla Oliveira

Testemunho de Marisa Lino (Alverca)

18 Abr

Marisa Lino foi incentivada a partilhar connosco o seu testemunho enquanto pessoa com mobilidade reduzida, que se desloca em cadeira-de-rodas, e que lida diariamente com a problemática das (in)acessibilidades. Transcrevemos de seguida o seu testemunho na íntegra, acompanhado de um vídeo bastante ilustrativo.

VÍDEO

«Ontem disse-vos que hoje iria filmar o trajeto da minha casa para a estação de comboio e o respectivo retorno, mas infelizmente só consegui filmar da minha casa para a estação, mas o percurso para a minha casa é o inverso e do lado contrário.

Este é o percurso que faço todos os dias para me deslocar da minha casa para a estação, pois para ir trabalhar tenho de apanhar o comboio. O percurso é feito de manhã e à tardinha. É preciso salientar que existe um passeio que vai lá ter diretamente, mas o mesmo não está acessível, nem na entrada, nem no meio, nem no fim. Existe mesmo uma zona, junto a umas vivendas em que o passeio está inclinado (no vídeo não se consegue ver). Ora se eu for nesse passeio inclinado que mais parece aquele do “Vale tudo” com a minha cadeira a mesma iria derrapar e eu iria ficar com a cara espetada ou num poste ou então iria ser o próximo cartaz exposto em Alverca porque bati com a cara num vidro de um carro. Lol. 

Posto isto, pela falta de acessibilidade, melhor, falta de humanidade, sou obrigada a ir pela estrada, onde estou sujeita a ir à boleia com algum carro (sem o mesmo se aperceber), ficar encalhada num buraco ou então abrirem a porta de um carro, dos muitos mal estacionados e a entrar nele sem pedir licença… Lol. 

Já ouvi tantas buzinadelas que não têm noção. E gestos do tipo “sai daí, vai para o passeio”??? Só tenho vontade de rir e mesmo assim riu-me sozinha e penso: “Será que não vêm que não consigo andar no passeio”? Mas o que posso fazer? Eu tenho de ir trabalhar, eu quero ir trabalhar, por isso se não dá pelo passeio, olha, vai mesmo pela estrada… 

Agora veio o sol, escurece mais tarde, estou feliz, já me vêm melhor… Porque de noite, de noite falta-me o ar, vou no meu caminho para casa a rezar a todos os santinhos para que nada me aconteça, nem a qualquer outra pessoa, como é óbvio.

Já escrevi para o Sr. Presidente, Afonso Costa, pedi-lhe encarecidamente (parece que neste país se precisarmos de alguma coisa temos de pedir “por favor”, como se eu já não tivesse de ter direito obrigatoriamente) para que mandasse arranjar os passeios, não só e apenas para minha segurança bem como a dos automobilistas, mas a resposta foi que essas obras estão dependentes das obras que estão a ser feitas no descampado. Ah e também disseram que têm feito melhoramentos como colocarem corrimões e rebaixarem os passeios… Lol? Corrimões? Onde? Ainda não vi nenhum, mas se alguém que more em Alverca já tiver visto peço o favor de tirarem foto e me mandarem, pode ser?  E, passeios rebaixados ou inclinados e altos? Não estou a perceber mas peço a essa gente que venha comigo para vermos quem cai primeiro… Ok! Então quando é que eu vou poder andar pelo passeio como uma pessoa normal? Sim, porque este país é feito de categorias, ou seja: os pobres, os ricos, os sem-abrigo e os deficientes… Ah e os “ditos normais” como costumam dizer. Lol. Adoro ser anormal então, já que me diferenciam apenas por andar numa cadeira de rodas… Mentalidades, fazer o quê? 

Falei de mim, mas como eu há muitos. Muitos que precisam de nada para conseguirem fazer tudo… Há também (e eu não descrimino ninguém), pessoas de canadianas, pessoas idosas com bengalas, mães com carrinhos de bebé… Eu não sou invejosa, não peço apenas para mim. É este o meu dia a dia… E depois desta turbulência que levo até chegar à estação ainda tenho de apanhar um comboio para Entrecampos e depois uma carrinha para Telheiras, depois ainda tenho de trabalhar e depois voltar para casa e voltar a passar por tudo de novo… Só de escrever estou cansada! 

Moral da história? Chego à noite feita em cacos e cansada da cabeça devido ao esforço observatório que faço para não me acontecer nada… 

P.S. Desculpem a má qualidade do vídeo mas o meu telemóvel não deu para mais. Lol. Sim, apesar de tudo, de estar toda partida ainda consigo sorrir… 😀

Se pudessem agradecia que passassem a palavra, pode ser que chegue ao Sr. Presidente ou amigos… Lol.

Muito obrigada por toda a vossa força! 🙂 »

Marisa Lino, 17 de Abril de 2013

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